*Por Fernanda Sepe
@fernanda.sepe
Por isso, nesse momento, nesse mês, nós precisamos olhar com carinho e com cuidado para quem cuida. Como profissional da área da inclusão e mão de criança atípica, convido a fazermos um exercício: aquela mãe que sempre carrega seu filho nos braços, para cima e para baixo — terapias, exames, consulta, escola e buscar mais cedo na escola —, uma rotina intensa. Uma rotina que, muitas vezes, obriga esta mãe a abandonar os próprios sonhos, abandonar os próprios desejos, a própria carreira e o próprio futuro em nome de algo muito maior: o futuro do seu filho.
Essa mãe, muitas vezes chamada de guerreira, na verdade está cansada, mas não pode se permitir descansar, não pode se permitir ficar doente, não pode se permitir, muitas vezes, morrer. E esse é um assunto muito delicado. A mãe da criança com deficiência carrega o mundo nos seus braços, carrega o futuro do seu filho nas suas escolhas, nas suas decisões, nas suas lutas diárias.
Essa mãe não é uma mãe guerreira, ela não deseja, muitas vezes, receber esse título. É uma mãe que deseja, mais do que qualquer coisa, que seu filho seja feliz e que ele consiga alçar os próprios voos. É importante a gente entender isso. Enquanto mães de crianças típicas — crianças sem transtornos, sem deficiências — criam expectativas de carreira, de sucesso, de conquistas para nossos filhos, muitas vezes a mãe atípica (aquela mãe daquela criança autista, da criança que usa cadeira de rodas, uma criança com sérias dificuldades de aprendizagem) deseja apenas que seu filho aprenda, que seu filho tenha autonomia, que ele se sinta parte de um grupo, de algum lugar, que ele seja feliz e amado.
E, muitas vezes, profissionais, escola e a própria família ajudam com algum cuidado dessa criança, desse filho. Fazem o que podem para que ele alcance algum sucesso, mas é a mãe que carrega o maior peso de todas as lutas e, muitas vezes, de todas as conquistas. E aí eu deixo a pergunta: essa mãe que abdicou da própria vida, dos próprios sonhos, dos próprios desejos para que seu filho pudesse ter os próprios sonhos; essa mãe que cuida dia e noite; essa mãe que não é só mãe, não é só enfermeira, não é só cozinheira, que passou a ser psicóloga, pedagoga, terapeuta, passou a ser o mundo todo desse filho… Essa mãe que lembra, que cuida, que acolhe, que não desiste: quem cuida dessa mãe?
Então, no mês de maio, mês das Mães, eu deixo o convite, deixo a sugestão, deixo a provocação: quantas vezes você deixou de olhar com preconceito? Quantas vezes você deixou de dizer que ela era uma guerreira e realmente foi suporte, foi ajuda, foi apoio?
Quantas vezes você cuidou dela? Quantas vezes você foi a pessoa que permitiu, de alguma forma, que ela olhasse para si e se visse como alguém além da mãe? Quantas vezes você se permitiu ver nessa mãe alguém frágil, alguém cansado, alguém que precisava apenas de um abraço ou algumas horinhas comendo um pedaço de bolo e tomando um café, batendo um papo, dando risada? Quantas vezes você olhou para essa pessoa como além da mãe de alguém?
* Fernanda Sepe é especialista em desenvolvimento infantil e educação, atuando como neuropsicopedagoga clínica e institucional e analista do comportamento. Também é professora de cursos de pós-graduação e orientadora parental, além de mãe de 4 filhos típicos e atípicos.



