Por Charles Pires
Nas últimas semanas, algumas perguntas desconfortáveis têm atravessado esta coluna.
Falamos sobre a necessidade de agradar, a autocobrança, a comparação com a vida dos outros e, mais recentemente, sobre aquilo que passamos a vida tentando provar.
Talvez todas essas reflexões nos tragam até uma pergunta ainda mais profunda:
Depois de retirar tudo isso, quem sobra?
Imagine que ninguém pudesse julgar suas escolhas. Ninguém saberia quanto você ganha, onde mora, qual carro dirige ou quantas pessoas acompanham sua vida. Suas conquistas não seriam publicadas e seus fracassos não seriam comentados.
O que você faria diferente?
Desde cedo aprendemos que alguns comportamentos recebem aprovação e outros, reprovação. Percebemos quais atitudes provocam elogios, quais resultados despertam orgulho e quais características facilitam nossa aceitação.
Isso faz parte da vida em sociedade. O problema começa quando deixamos de perguntar “Quem eu sou?” e passamos a organizar nossa existência em torno de outra questão:
“Quem preciso ser para ser aceito?”
Na psicologia comportamental, sabemos que comportamentos podem se fortalecer pelas consequências que produzem. Se demonstrar competência gera reconhecimento, podemos aprender a nunca demonstrar insegurança. Se concordar evita rejeição, podemos começar a esconder nossas opiniões. Se cuidar de todos nos faz sentir necessários, talvez passemos a acreditar que não temos o direito de precisar de alguém.
Nenhuma dessas estratégias surge necessariamente de uma decisão consciente. Muitas vezes, apenas descobrimos maneiras de pertencer.
O problema é quando, para pertencer, começamos a desaparecer.
Talvez seja justamente aí que as reflexões das últimas semanas se encontrem.
Tentamos agradar. Comparamo-nos. Cobramos cada vez mais de nós mesmos. Transformamos conquistas em provas de valor.
Parecem comportamentos diferentes, mas alguns deles podem carregar silenciosamente a mesma pergunta:
“Eu sou suficiente assim?”
Quando a resposta interna é constantemente “não”, começa uma corrida sem linha de chegada.
É como um ator que interpreta o mesmo personagem durante tantos anos que, ao final do espetáculo, entra no camarim, olha para o espelho e já não sabe onde termina o personagem e começa a pessoa.
Nós também construímos personagens.
O profissional que nunca pode demonstrar insegurança. A pessoa forte que resolve os problemas de todos. O pai ou a mãe que precisa ter todas as respostas. A pessoa bem-sucedida que não pode admitir que está cansada.
O problema não está nos papéis que desempenhamos. Todos nós temos vários.
O perigo começa quando acreditamos que só temos valor enquanto conseguimos sustentá-los.
Talvez por isso o silêncio seja tão importante. Quando os aplausos cessam, quando a comparação perde força e quando não há ninguém para impressionar, sobra o encontro conosco.
E então surge uma pergunta que nenhuma rede social, currículo ou conta bancária consegue responder:
A vida que estou construindo realmente se parece comigo?
Se ninguém pudesse ver, você ainda desejaria as mesmas coisas? Continuaria trabalhando da mesma maneira? Manteria determinadas relações? Perseguiria os mesmos objetivos?
Algumas respostas serão sim. Outras talvez sejam não.
E isso não precisa produzir culpa. Pode produzir consciência.
Na terapia, muitas vezes, uma mudança importante acontece quando deixamos de observar apenas o que fazemos e começamos a investigar o que buscamos ou evitamos quando fazemos aquilo.
Talvez você descubra que ainda tenta provar algo para alguém que nem faz mais parte da sua vida.
Talvez continue tentando mostrar que aquela pessoa que duvidou de você estava errada.
Ou, ainda mais curioso, talvez esteja obedecendo a expectativas que ninguém mais exige — exceto você mesmo.
Quantas batalhas continuamos lutando mesmo depois que o adversário já foi embora?
Perceber isso pode ser libertador.
Não porque deixaremos de desejar reconhecimento. O olhar do outro continuará tendo importância. Mas ele não precisa ser o único espelho no qual conseguimos enxergar nosso valor.
Talvez essa seja uma das ideias que estamos construindo, semana após semana, aqui na Além da Mente: compreender nossos pensamentos e comportamentos não apenas para descobrir de onde vieram, mas para decidir até onde ainda queremos ser conduzidos por eles.
O passado pode explicar um padrão. A necessidade de aceitação pode explicar uma escolha. Uma experiência pode explicar um medo.
Mas compreender não significa continuar obedecendo.
Em algum momento, autoconhecimento precisa deixar de ser apenas explicação e se transformar em escolha.
Então proponho um exercício simples para esta semana.
Antes de uma decisão importante — ou mesmo diante de uma escolha cotidiana — pare por alguns segundos e faça três perguntas:
“Eu realmente quero isso?”
“Eu faria essa escolha se ninguém soubesse?”
“Estou escolhendo por mim ou tentando provar alguma coisa para alguém?”
Não é necessário mudar tudo imediatamente. Apenas observe as respostas.
Talvez você perceba que algumas escolhas são genuinamente suas. Preserve-as.
Talvez descubra outras que nasceram do medo de decepcionar, da necessidade de aprovação ou de expectativas que você carrega há anos. Questione-as.
E escolha uma delas — apenas uma — para fazer diferente.
Pode ser dizer “não” sem apresentar dez justificativas. Usar algo porque você gosta. Descansar sem precisar demonstrar produtividade. Deixar de publicar uma conquista apenas para receber aprovação. Ou simplesmente tomar uma decisão sem consultar o mundo inteiro antes de consultar a si mesmo.
Pode parecer pouco.
Mas identidade também se constrói assim: em pequenas escolhas nas quais deixamos de representar e começamos a nos posicionar.
Talvez você não descubra imediatamente quem seria se não precisasse impressionar ninguém.
Mas pode começar descobrindo quem não precisa mais continuar sendo.
E, algumas vezes, esse já é um belo começo.
Porque encontrar a si mesmo talvez não exija uma grande transformação. Pode começar simplesmente quando, diante da próxima escolha, você tiver coragem de perguntar: “Se eu não precisasse provar nada para ninguém, o que escolheria agora?”
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta



