Por Bia Rossatti
@biarossattiterapeuta
Um paradoxo contemporâneo
Se existe algo que permanece constante na experiência humana, é o desejo de se relacionar.
Apesar de todas as transformações sociais, culturais e tecnológicas, o ser humano continua buscando o mesmo: conexão, vínculo, afeto e a construção de uma relação duradoura com o outro.
Mas então, por que estamos nos separando tanto?
No Brasil, segundo dados do IBGE, foram registrados mais de 420 mil divórcios em 2022. E um fenômeno ainda mais curioso tem ganhado força: o chamado “Gray Divorce”, o aumento das separações entre casais com mais de 50 anos.
Ou seja, mesmo após décadas juntos, muitas relações ainda estão se desfazendo.
Diante disso, a pergunta se torna inevitável: Se o desejo de amar permanece, onde está o problema?
O desejo de vínculo é humano. A psicologia e a terapia familiar são claras ao afirmar: o ser humano é, por natureza, relacional.
O psicólogo John Bowlby, criador da Teoria do Apego, demonstrou que desde o início da vida desenvolvemos vínculos que moldam profundamente nossa forma de amar, confiar e nos conectar.
A terapeuta familiar Virginia Satir também reforçava que é nas relações que construímos nossa autoestima, nossa identidade e nossa percepção de mundo.
Relacionar-se, portanto, não é apenas uma escolha — é uma necessidade emocional e psíquica e, talvez esse seja o ponto mais importante: o desejo de se ligar ao outro não desapareceu.
O que mudou, então?
Se o desejo continua, mas os relacionamentos não se sustentam, é preciso olhar para outro lugar: a forma como estamos nos relacionando.
Vivemos uma época de imediatismo; excesso de expectativas; baixa tolerância à frustração; dificuldade de diálogo e, pouca educação emocional.
Muitas pessoas entram em relacionamentos esperando receber aquilo que ainda não sabem construir.
Esperam que o outro: preencha vazios; resolva inseguranças; sustente emoções que não foram elaboradas e, inevitavelmente, isso gera frustração.
O equívoco silencioso
Existe um equívoco muito comum nos relacionamentos contemporâneos: creditar que o problema está no outro — ou na relação em si. Mas talvez a questão seja mais profunda.
A filósofa Lúcia Helena Galvão já trouxe uma reflexão fundamental ao afirmar que os relacionamentos existem para nos fazer crescer, quando refletiu sobre o outro que não é apenas companhia — mas também espelho. E nem sempre estamos preparados para ver o que esse espelho revela.
Queremos ainda amar, construir, criar vínculos mas muitas vezes não sabemos como sustentar uma relação ao longo do tempo.
Quando surgem os conflitos — e eles sempre surgem — faltam recursos emocionais para lidar com: a frustração, as diferenças, a comunicação e os limites e, aos poucos, o que poderia ser crescimento se transforma em desgaste.
O ponto de virada
Talvez o grande problema não seja o amor. Talvez não seja o casamento. Talvez não seja nem o outro. Talvez o problema esteja na ausência de consciência sobre como nos relacionamos.
Relacionamentos não se sustentam apenas com sentimento.
Eles exigem: maturidade emocional, responsabilidade afetiva, disposição para aprender e, principalmente, autoconhecimento. Sem isso, até o amor mais intenso pode se perder.
E quando um relacionamento termina, é comum surgir a sensação de fracasso. Mas, na prática, muitos términos podem ser também convites.
Convites para olhar para si. Para rever padrões. Para compreender a própria história afetiva e, a partir disso, construir uma nova forma de se relacionar.
Um convite necessário
Se o desejo de amar continua vivo — e ele continua — então talvez este seja o momento de mudar a pergunta.
Não apenas: “Por que os relacionamentos acabam?” Mas principalmente: “O que precisamos aprender para construir relações que permaneçam?”
Porque, no fim, o desafio não é encontrar alguém. É saber se relacionar.
E essa talvez seja uma das aprendizagens mais importantes da vida.
Sobre a autora
Maria Beatriz Rossatti é terapeuta e pesquisadora das relações humanas. Atua no acompanhamento de casais em crise e de pessoas que atravessam processos de separação e divórcio, auxiliando na reconstrução emocional e no desenvolvimento de relações mais conscientes. É criadora do projeto A Rota da Cura, dedicado ao autoconhecimento e à ressignificação das experiências afetivas.



