Por Ramon Henrique
Eu ia acordar e não precisar ficar pensando 2x antes de dar a mão pro boy na rua. Ia andar de boa, sem olhar pros lados.
Ia testar as cantadas ruins que eles usam. “Oi sumida, vem cá”. “Deixa eu te pagar um açaí”. Ia ver se cola mesmo ou se só funciona com a gente rindo.
Iria entrar no grupo da família e não ter aquele silêncio estranho quando falam de namoro. Ia levar a “namorada” no almoço de domingo e todo mundo ia achar normal.
Poderia ver novela e os beijos na TV que não iriao ser cortados, ia ver comercial de shampoo e ver gente igual a mim em todo lugar.
Poderia usar camisa do time e ninguém ia fazer piadinha, ia jogar bola e ninguém poderia perguntar se eu “jogo de verdade”.
Ia sentir como é não ter medo de ser expulso de casa, de perder emprego, de apanhar só por gostar de alguém.
Mas sabe qual é? Ia durar só 24h, orque no segundo dia eu ia sentir falta das minhas pocs, da balada gay, do “amiga lacrou”, do glitter, da liberdade de amar do meu jeito.
Ser hétero por 1 dia ia ser fácil, ser gay todos os dias é ser forte, eu prefiro ser forte, então pode ficar com o dia de hétero.
Eu fico com a minha vida inteira sendo eu.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista Veja/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



