Por Ramon Henrique
Tem coisa que não dá pra explicar, só pra carregar é uma delas é crescer gay, lésbica, bi ou trans dentro de uma casa onde a parede da sala tem um crucifixo, o rádio toca gospel no domingo de manhã e a avó guarda folhinha de oração na Bíblia.
Você aprende a amar Deus antes mesmo de entender o que é desejo. Aprende a cantar “Ele é Senhor” antes de entender por que seu coração acelera quando um menino da escola passa por você.
E aí a vida coloca esses dois aprendizados no mesmo corpo e diz: “Se vira”.
Porque foi assim comigo e com tanta gente que eu conheço a igreja foi o primeiro lugar de comunidade.
Foi onde eu tive amigos, onde eu fui bem-vindo quando a escola me chamava de “bicha”, foi onde eu vi gente chorar junto, dividir comida, rezar por parente doente.
Religião, no Brasil, não é só doutrina é rede, é colo, é história de família.
Abrir mão disso não é como trocar de camisa. É como arrancar raiz só que junto com o colo veio a régua, e essa régua media tudo: roupa, jeito de falar, quem você podia olhar.
Aí você descobre que o conflito não é entre você e Deus, é entre você e uma interpretação.
Porque se você abre a Bíblia sem medo, percebe que Jesus gastou mais tinta falando de quem julga do que de quem ama diferente.
Ele sentou com prostituta, com cobrador de imposto, com gente que a religião da época chamava de “imunda”. Ele não montou lista de quem pode entrar. Ele escancarou a porta.
E aos poucos você encontra outros que fizeram o mesmo caminho. Conhece o padre que abençoa união homoafetiva, a pastora lésbica que prega todo domingo, o pai-de-santo que diz que Oxum entende amor sem perguntar gênero.
Ser LGBT e religioso é reaprender a rezar,é tirar Deus do banco do réu e colocar ele de novo no lugar de pai, de amigo, de mistério.
É entender que espiritualidade não precisa de permissão de conselho pastoral, às vezes a oração mais honesta é: “Se o Senhor me fez assim, então me ajuda a não me odiar por isso”.
Claro que tem ferida, tem família que chora na mesa de Natal, tem tio que fala “eu te amo, mas não aprovo”. Tem pastor que te expulsa do louvor. Tem igreja que prefere perder membro do que perder discurso.
Tem LGBT que resolveu ser ateu e tá em paz, tem LGBT que virou candomblecista porque encontrou corpo e ancestralidade sem culpa, tem LGBT que ficou católico, mas não vai mais à missa todo domingo, tem LGBT que continua na Assembleia, no Batista, na Católica, e faz teologia na marra, verso por verso, pra não deixar ninguém roubar seu Deus. Nenhum caminho anula o outro.
No fim, a pergunta “existe paz entre fé e orientação?” só faz sentido se a gente achar que um dos dois precisa morrer.
E não precisa. Paz não é quando o mundo concorda com você, paz é quando você para de brigar com você mesmo, é quando você consegue dizer: “Eu sou gay e eu creio. E uma coisa não cancela a outra”.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista IstoÉ/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



