Por Paula Silveira *
Autor: Fabiana Bortolin Monteiro,
naturista há 3 anos,
Professora de Geografia e História,
Associada do SPNAT.
@fbrn_oficial
Eu já havia lido sobre naturismo em diversos portais. Sabia que não tinha relação com sexo, porém, minha mente criada em uma sociedade religiosa, mesmo que eu não seja, ainda me colocava barreiras para compreender o naturismo como modo, um estilo de vida.
Em agosto de 2022, conheci no trabalho, uma pessoa que, pouco tempo depois, viria a ser meu marido. Ele já era naturista desde muito tempo, apesar de ter se demorado a associar ao SPNat e se federar a FBrN. Ele sempre deixou claro que era naturista, independente daquilo que as pessoas pensariam sobre ele no ambiente de trabalho, explicava como as coisas funcionavam nos encontros, convidava alguns para conhecer e experimentar o naturismo. Foi suficiente para me atiçar a curiosidade e a vontade de participar de um encontro. Ele sempre convidava, mas, por mais que eu quisesse experimentar, sempre acontecia algo ou tinha algum compromisso. Até que ele resolveu não convidar mais para os encontros.

De repente, não mais que de repente, lembro desse dia perfeitamente, saí da minha sala, fui até a sala dele e perguntei quando teria um encontro naturista, pois eu queria participar. A cara dele foi impagável, parecia que eu tinha contado um segredo absurdo, tal a cara de susto que ele fez. Coincidentemente, haveria um encontro do SPNat duas semanas depois. Ele me explicou que não era apenas chegar e participar, que eu teria que passar por uma entrevista, e, se tudo desse certo, participaria do encontro. Entrevista marcada com a Drica, me identifiquei imediatamente com aquela “doidinha” de cabelo colorido como o meu. Como eu disse anteriormente, eu sabia como funcionava, mas ainda tinha dificuldade para compreender a dinâmica naturista como algo tão… natural. Agora era esperar meu primeiro encontro naturista.

Dia do encontro no sítio em Atibaia. O caminho de São Paulo até lá foi tranquilo, porém, quando entramos na cidade de Atibaia, o nervosismo começou a bater. Como eu, uma pessoa que raramente usava biquini e frequentava praias e piscinas, não por vergonha, mas por falta de tempo, ficaria nua na frente de um monte de desconhecidos? Como eu reagiria? Será que eu conseguiria? Respirei fundo e soltei o mantra “já que está, que fique”.
Dentro do sítio, pela primeira vez, vejo um monte de gente pelada, andando de um lado para o outro, apenas vivendo, sem neuras, sem acanhamento. Confesso que o coração sentiu um pouquinho de receio, mas em momento algum, cogitei desistir e voltar. Descemos do carro, meu companheiro passa a cumprimentar a todos, me apresentar, conversar. Entramos na casa onde alguns tomavam café da manhã. Todos nus. Passei a me sentir um pouco constrangida, mas é aqui que percebi que o naturismo viria a fazer parte da minha vida. Meu constrangimento, em momento algum foi por ver aquelas pessoas nuas, fiquei constrangida, pois eu ainda estava vestida no meio de um monte de gente pelada! Sabe quando temos aqueles sonhos freudianos, onde estamos nus no meio de um monte de gente vestida? Foi aquele tipo de vergonha, mas ao contrário. Perguntei onde eu poderia deixar minhas coisas, tirei a roupa e pronto. Que sensação libertadora!

Fui conhecer as dependências do sítio. Subi para a piscina, novamente, um monte de gente pelada tomando sol, conversando, jogando. Entrar em uma piscina totalmente nua é uma das melhores sensações da vida!
Havia todos os tipos físicos: gordos, magros, altos, baixinhos, homens, mulheres, adolescentes, crianças. Em momento algum havia qualquer insinuação a qualquer prática sexual. Todo mundo ali, fazendo o que qualquer grupo faria naquela situação, porém, todos nus. Não existia julgamentos.

Nesse sítio há uma pequena cachoeira na mata, eu, como uma boa interiorana, quis ver onde era e entrar na água. Lembro claramente de ir pela trilha com 5 homens que eu havia acabado de conhecer, e, em momento algum, me senti em perigo, mesmo com homens estranhos, nus ao meu redor. Eu sabia que o naturismo não associa estar nu com qualquer atividade sexual, portanto me sentia segura mesmo nessa situação. Em uma situação em que as pessoas ao meu redor não fossem naturistas, provavelmente, eu nunca seguiria homens desconhecidos em uma trilha, mesmo se estivéssemos todos vestidos. E pela primeira vez, entrei em uma cachoeira sem roupa. Novamente aquela sensação de liberdade.
De volta à piscina, eu já estava encantada com aquele estilo de vida. Passei o dia conhecendo gente nova, conhecendo mais sobre naturismo, me atentando às regras, pois no começo a gente tem que ficar lembrando de usar a canga ou toalha para nos sentarmos, cuidados com as fotos para não expor outras pessoas, etc, coisas que no decorrer do tempo se tornam tão naturais como lavar as mãos antes das refeições. Eu não esperava me adequar tão rapidamente. Na verdade, por mais que eu quisesse conhecer o naturismo por dentro, não sabia se me adequaria, não só me adequei, quanto me apaixonei.
Além de tudo isso, a parte de ficar nu acaba se tornando secundária, quando descobrimos que o naturismo também tem princípios ecologicamente corretos. Para mim, isso é pessoalmente importante. Cuidar da natureza, reciclar, limpar o meio ambiente, cuidar da mente. O naturismo abrange muito mais do que apenas a nudez. É cuidado, respeito, aprender a não julgar as aparências e aceitar o outro e aceitar a si mesmo.
E depois desse, já foram inúmeros encontros nus. Acabei me tornando uma “testemunha do naturismo”, estou sempre exprimindo o quanto o naturismo só faz bem e convidando pessoas a fazer parte desse estilo de vida. Infelizmente, nem todos estão abertos a essa experiência maravilhosa.
*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo na Hungria em 2026 e no México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.



