Por Bia Rossatti
Você já deve ter visto: o pão saindo do forno, o vestido rodado, a casa impecável, a voz calma dizendo como é bom cuidar do lar e do marido. São as tradwives — “esposas tradicionais”. O termo já virou até palavra oficial do dicionário Cambridge, em 2025. E, cá entre nós, essa estética tem feito muita mulher parar o dedo no scroll e pensar: “será que eu não queria isso também?”
Como terapeuta de família e casal há 14 anos, aprendi a não olhar para nenhuma tendência só pela superfície. Toda tendência forte é um sintoma. E todo sintoma está tentando dizer alguma coisa. Então vamos entender: o que esse desejo de “voltar para casa” está realmente tentando dizer?
Os dados contam uma história diferente da que parece
A leitura mais óbvia é: “essa geração está cansada do feminismo e quer voltar aos anos 1950.” Só que pesquisadoras do King’s College London, na Inglaterra, foram checar isso com dados de quase 40 anos de pesquisas sobre comportamento social. E a conclusão foi outra.
Hoje, só cerca de 10% das pessoas — homens e mulheres, de todas as idades — realmente concordam que o certo é o homem trabalhar fora e a mulher cuidar da casa. Mais de 60% ainda acreditam que os dois devem, sim, contribuir com a renda da família.
Ou seja: quase ninguém quer, de verdade, o modelo antigo de volta. O que a estética tradwife parece oferecer não é um projeto de vida real. É um lugar de descanso, mesmo que só na imaginação, para quem está exausta com o tanto que a vida moderna cobra: trabalhar em tempo integral, segurar a casa, cuidar dos filhos e ainda parecer plena nas redes sociais. Não é saudade do passado. É cansaço do presente.
No Brasil, a conta fecha ainda menos
Aqui, esse fenômeno ganha um peso a mais. Especialistas ouvidas pela imprensa brasileira apontam algo importante: as tradwives se apresentam como se tivessem feito uma escolha livre e simples. Mas essa escolha só é possível para um grupo muito específico de mulheres — geralmente casadas com homens de renda alta, muito distante da realidade da maioria das brasileiras, que seguem sendo, disparado, as principais responsáveis pelos cuidados da casa, trabalhando fora ou não.
Tem ainda uma camada histórica que pesa. O Brasil carrega uma herança de séculos de escravidão que, até hoje, faz o trabalho doméstico e manual ser desvalorizado. E é justamente esse trabalho — hoje filmado com luz bonita e música suave — que continua mal pago e mal reconhecido quando feito por necessidade, e não por escolha estética.
Por que isso mexe tanto com a gente — o olhar de quem está no consultório
No dia a dia da clínica, eu vejo o outro lado dessa fantasia. Vejo mulheres exaustas de carregar sozinhas o que chamamos de carga mental: lembrar do aniversário da sogra, perceber que o filho ficou sem meia limpa, organizar emocionalmente a casa inteira — além de dar conta do trabalho fora. Faz sentido que uma vida com papéis bem definidos, mesmo romantizada, mesmo distante da realidade, pareça um alívio. Ter uma função clara é sedutor quando a alternativa parece ser dar conta de tudo, sozinha, o tempo todo.
Só que existe uma diferença enorme entre querer alívio da sobrecarga e querer abrir mão da própria autonomia. São coisas diferentes. O que muitas mulheres estão pedindo, no fundo, não é deixar de ser quem são. É parar de ser a única responsável por segurar a casa, a relação e a carreira ao mesmo tempo, sozinha. É um pedido por parceria de verdade — não por hierarquia.
Uma pergunta melhor do que “voltar ou não voltar”
Em vez de perguntar se essa geração quer voltar às tradições, talvez a pergunta mais honesta seja outra: que tipo de casa, de relação e de divisão de tarefas essas mulheres construiriam se não estivessem tão cansadas? A resposta quase nunca é “eu quero servir”. É “eu quero descansar”, “eu quero ser vista”, “eu quero que dividir a vida não signifique carregar tudo sozinha”.
Isso não é tradição. É negociação. É a mesma negociação que vejo, todos os dias, em casais que tentam construir uma forma de conviver que faça sentido para os dois — sem copiar um modelo pronto do passado, nem um ideal impossível do presente. Relação saudável não se constrói imitando estética de rede social, seja ela tradicional ou moderna. Se constrói com conversa, com papéis combinados (não impostos) e com a coragem de perguntar ao outro: “o que precisamos mudar para essa casa parar de pesar só nos meus ombros?”
Bia Rossatti é terapeuta de família e casal há 14 anos, pós-graduada em Terapia Familiar e de Casal Sistêmica pela UNIFESP e autora de “Depois do Divórcio: A Rota da Cura”.
Fontes consultadas:
Global Institute for Women’s Leadership, King’s Business School — King’s College London
IstoÉ Mulher — “Tradwife: especialista analisa movimento que romantiza o trabalho doméstico”
Agemt / Jornalismo PUC-SP — “O fenômeno da ‘esposa troféu’ nas redes”
Britannica — verbete “Tradwife”



