Por Carla Perin
Um olhar sistêmico sobre cães em campanhas, publicidade e o lugar do animal na sociedade
“Nem todo trabalho é exploração — mas todo trabalho precisa respeitar a natureza de quem o realiza.”
No Dia do Trabalhador, somos convidados a refletir sobre o valor do trabalho humano, seus direitos, limites e dignidade.
Mas, em meio a essa reflexão, surge uma pergunta pouco comum — e profundamente necessária:
os animais também trabalham?
Cães que aparecem em comerciais de televisão, campanhas publicitárias, embalagens de ração e até em conteúdos digitais fazem parte de um universo cada vez mais presente na sociedade.
Eles estão em destaque, participam de produções, seguem comandos, permanecem em cena.
Mas o que isso significa?
Quando o animal entra em cena
A presença de animais na publicidade não é nova. Eles despertam empatia, conexão e identificação. Um cão em uma campanha transmite confiança, afeto e proximidade.
Por trás dessas imagens, existe um processo:
Mas será que isso pode ser chamado de trabalho?
Trabalho ou função?
Do ponto de vista humano, trabalho envolve intenção, escolha e consciência de função.
Os animais não operam nesse mesmo campo. Eles não escolhem “trabalhar” como nós. Eles respondem a estímulos, aprendizados e vínculos.
Então, talvez a pergunta mais adequada não seja se o animal trabalha,
mas em que lugar ele está sendo colocado dentro dessa dinâmica.
O olhar sistêmico sobre o lugar
Na visão sistêmica inspirada no trabalho de Bert Hellinger, cada ser possui um lugar dentro de um sistema.
O equilíbrio acontece quando esse lugar é respeitado.O animal, dentro do sistema humano, ocupa o lugar de animal.
Um ser vivo que merece cuidado, respeito e proteção.
Quando ele é inserido em atividades humanas — como publicidade ou campanhas — esse movimento precisa preservar esse lugar.
O problema não está na participação.
Está na distorção do papel.
Quando há respeito, há equilíbrio
Existem contextos em que a participação de animais em campanhas ocorre com cuidado:
acompanhamento profissional
respeito aos limites físicos e emocionais
pausas adequadas
ambiente controlado
ausência de sofrimento ou estresse
Nesses casos, o animal participa de uma atividade, mas não perde sua natureza.
Ele não é forçado a ser algo que não é.
Quando há excesso, surge o desequilíbrio
Por outro lado, quando o animal é exposto a:
excesso de repetição
ambientes estressantes
estímulos inadequados
exploração da imagem sem cuidado real
há um deslocamento.O animal deixa de ser reconhecido como ser vivo e passa a ser tratado como recurso.
E, na visão sistêmica, tudo aquilo que perde seu lugar tende a gerar desequilíbrio.
A humanização e a projeção
Um ponto importante nesse tema é a tendência humana de projetar nos animais funções que são nossas.
Quando dizemos que o animal “trabalha”, muitas vezes estamos atribuindo a ele um papel humano.
Mas os animais não vivem a partir dessa lógica.
Eles vivem a partir da experiência, da resposta ao ambiente e do vínculo.
E é nesse ponto que o cuidado precisa existir:
não transformar o animal em instrumento de expectativas humanas.
O que esse tema revela sobre nós
Mais do que falar sobre os animais, essa reflexão fala sobre a sociedade.
Vivemos em um mundo que valoriza produtividade, desempenho e resultado.
E, muitas vezes, essa lógica se estende também para os animais.
Queremos que eles correspondam, performem, participem.
Mas será que estamos respeitando sua natureza?
Trabalho com dignidade… também para os animais
No Dia do Trabalhador, refletir sobre trabalho também é refletir sobre limites, respeito e dignidade.
Mesmo que o animal não “trabalhe” no sentido humano, ele participa de atividades humanas.
E essa participação precisa ser ética.
Precisa respeitar seu tempo, seu corpo e sua essência.
Um convite à consciência
Talvez a pergunta não seja apenas:
“os animais trabalham?”
Mas sim:
“como estamos nos relacionando com os animais dentro das nossas necessidades humanas?”
Estamos respeitando seu lugar?
Ou estamos adaptando-os às nossas expectativas?
O verdadeiro lugar do animal
Quando o animal é visto, respeitado e protegido, ele pode participar do mundo humano sem perder sua natureza.
Mas, quando esse equilíbrio se rompe, algo se perde.
E, na visão sistêmica, o caminho é sempre o mesmo:
recolocar cada ser no seu lugar.
Porque é no lugar certo que existe dignidade.
E onde há dignidade, existe equilíbrio.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.



