Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_Jackson_Shella
Quando falamos em “autonomia afetiva”, pode parecer uma expressão bonita, mas meio distante. Então eu quero começar te chamando pra perto: pensa na sua vida afetiva hoje. Quantas vezes você já se sentiu preso a relações que ferem, mas das quais é difícil sair? Ou preso a memórias, culpas, silêncios que parecem não ter fim?
Eu te faço essa pergunta justamente porque hoje o tema não é leve, mas é necessário: autonomia afetiva em um país que precisa olhar de frente o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes.
Autonomia afetiva não nasce pronta. Ela é construída, principalmente, a partir do que vivemos na infância. E é aqui que a conversa fica especialmente delicada. Crianças e adolescentes que sofrem abuso não têm escolha real. Não é falta de força, não é “não souberam dizer não”: é ausência de condições emocionais, físicas e relacionais para se proteger. Muitas vezes o agressor é alguém próximo, alguém em quem se confia. O “não” da criança é silenciado antes mesmo de ser aprendido.
Por isso, quando falamos em autonomia afetiva como adultos, estamos também falando de algo que pode ter sido quebrado lá atrás: o direito de sentir, de dizer que dói, de acreditar em si mesmo.
Eu quero que você escute isso com calma: se você viveu qualquer forma de abuso ou violência, nada disso é culpa sua. Nenhuma. O que aconteceu feriu sua autonomia afetiva, mas não define quem você é, nem limita para sempre o que você pode construir daqui pra frente.
Autonomia afetiva, pra mim, é a capacidade de:
perceber o que você sente
nomear isso com honestidade
reconhecer o que é limite e o que é violência
escolher quem pode ou não permanecer perto do seu mundo interno
Não é sobre ser “forte” o tempo todo, nem sobre nunca se abalar. É sobre ter um lugar interno onde você se ouve, se leva a sério e se protege.
Agora eu quero que a gente faça um pequeno exercício de reflexão juntos. Vai lendo e, se puder, responde aí dentro de você:
Eu consigo perceber quando uma relação me faz mal, ou sempre acho que o problema sou “eu”?
Tenho medo de desagradar a ponto de aceitar coisas que me humilham ou me machucam?
Aprendi desde cedo que “sentir demais” é exagero, frescura ou drama?
Se alguma dessas perguntas mexeu com você, isso já é um começo. Começar a se perguntar é um ato de autonomia.
Quando falamos no Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, não estamos só olhando para casos extremos que aparecem nos noticiários. Estamos falando de histórias que moram dentro de muita gente adulta hoje: marcas de medo, de vergonha, de confusão entre carinho e invasão, amor e controle, cuidado e poder.
Construir relações livres de abuso passa, necessariamente, por recuperar a autonomia afetiva: a nossa e a das próximas gerações. Isso significa:
ensinar crianças desde cedo que seus corpos têm limites
escutar quando elas dizem “não”
acreditar nelas quando algo parece estranho
não romantizar ciúme, invasão de privacidade e controle como “prova de amor”
E, no caso de quem já está adulto, significa se autorizar a buscar ajuda. Não para “esquecer” o que aconteceu, mas para transformar a forma como isso ainda ecoa na sua vida. Autonomia afetiva não é apagar a dor; é deixar de ser comandado por ela.
Eu sei que não é fácil. Às vezes, a própria ideia de falar sobre isso assusta. Dá vontade de dizer “já passou, deixa pra lá”. Mas dentro desse “deixa pra lá” muitas vidas seguem sem espaço pra respirar.
Se você sente que alguma parte dessa conversa é sua, eu te convido a não ficar sozinho com isso. A autonomia afetiva também se constrói na relação: na escuta, no acolhimento, no espaço onde você pode contar a sua história sem ser julgado.
Se quiser seguir conversando sobre esse tema, acolher sua história ou entender melhor seus próprios limites e relações, você pode me chamar diretamente no Instagram ou whatsapp.
Whatsapp: (41) 99182-9353
e-mail: [email protected]
Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



