Por Ramon Henrique
Chamar pelo nome certo não é frescura. Não é mimimi. Não é “ah, mas eu esqueci”. Chamar pelo nome social é chamar pela pessoa inteira.
Apelido é coisa que amigo inventa na resenha. É “gordo”, “baiano”, “magrelo”. Você até pode não gostar, mas escolheu responder.
Nome social é diferente. Nome social é sobrevivência. É a palavra que cabe no peito quando o espelho mente. É o som que faz sentido quando você se apresenta e não precisa explicar nada.
Pra pessoa trans, travesti e não-binária, ouvir o nome de registro na chamada da escola, no banco, no trabalho, é ouvir um tiro.
É lembrar que o mundo ainda acha que tem direito de decidir quem você é. É voltar pra um corpo que você já enterrou. É engolir seco e sorrir pra não ser “grosso”.
E aí vem o discurso: “Mas é só um nome”. Só um nome é o que te chamam na certidão de nascimento.Só um nome é o que te chamam no velório. Só um nome é o que te chamam quando não te conhecem. Nome social é quando te conhecem de verdade.
Nome social é documento, é respeito, é lei. Mas antes de ser lei, é cuidado. É a mãe que treina em casa pra não errar na frente da família.
É o professor que risca a lista e escreve o nome certo à mão. É o colega que corrige o outro: “Não, o nome dela é esse”.
Errar acontece. Ninguém é perfeito. A diferença tá no depois. Quem respeita pede desculpa e acerta na próxima. Quem não respeita faz piada, fala de “mimimi”, pergunta “mas qual era mesmo o seu nome de verdade?” como se nome social fosse fantasia de carnaval.
Nome social não é apelido porque apelido você arranca. Nome social você conquista. Às vezes na terapia, às vezes na porrada com a família, às vezes sozinho no cartório gastando o pouco dinheiro que tem pra pagar a mudança na certidão. Nome social tem história, tem dor, tem vitória.
Então, na próxima vez que for chamar alguém, lembra: se a pessoa te contou o nome social, é porque confiou.
É porque cansou de responder por um nome que não é dela. É porque quer existir em paz.
Chama pelo nome certo. É de graça. E muda tudo.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



