Por Carla Perin
@cacaperin
O que a visão sistêmica nos ensina sobre o corpo, o comportamento e o vínculo humano-animal
“Muitas vezes, o animal expressa no corpo aquilo que o sistema familiar ainda não conseguiu colocar em palavras.”
Na Medicina Veterinária tradicional, olhamos para sintomas, exames, diagnósticos e tratamentos. Esse cuidado é essencial e indispensável.Mas, na Medicina Veterinária Sistêmica, ampliamos a pergunta.Além de “o que o animal tem?”, começamos também a observar:
“o que esse animal está expressando dentro do sistema em que vive?”
É nesse contexto que surge um conceito profundo e cada vez mais discutido: o animal como bioindicador.
O que significa ser um bioindicador?
Na visão sistêmica, o bioindicador é aquele que manifesta, através do corpo ou do comportamento, sinais do ambiente emocional e relacional ao qual pertence.Os animais vivem completamente inseridos no campo familiar. Eles percebem tensões emocionais, conflitos silenciosos, ansiedade, lutos, separações, mudanças bruscas. E, muitas vezes, respondem a tudo isso de maneira extremamente sensível. O animal não “cria” o problema. Mas pode expressar aquilo que o sistema está vivendo.
O animal absorve o ambiente emocional?
Os animais são extremamente sensíveis ao campo emocional da casa. Cães e gatos percebem mudanças sutis de energia, tom de voz, tensão, tristeza e instabilidade emocional. Por isso, muitas vezes se tornam verdadeiros sensores emocionais do ambiente familiar. Em casas muito agitadas, alguns animais permanecem hiper alertas. Em ambientes emocionalmente sobrecarregados, podem surgir ansiedade e comportamentos compulsivos. O animal começa a refletir o campo onde vive.
Isso significa culpa do tutor?
Não.
Esse é um dos pontos mais importantes da visão sistêmica. A sistêmica não trabalha com culpa .Ela trabalha com consciência. O objetivo não é responsabilizar o tutor pelo adoecimento do animal, mas ampliar a compreensão sobre o vínculo profundo entre humanos e pets. Muitas vezes, o animal apenas revela algo que já estava acontecendo dentro do sistema familiar.
O sintoma como convite ao olhar
Na abordagem sistêmica, o sintoma não é visto apenas como algo a ser eliminado rapidamente. Ele também pode ser entendido como um convite. O animal, muitas vezes, chama atenção para aquilo que estava invisível.
Os animais nos mostram quem somos
Talvez essa seja uma das funções mais profundas do vínculo humano-animal.
Os pets convivem tão intimamente conosco que acabam refletindo nossos ritmos, tensões e emoções. E fazem isso não através de palavras, mas através do corpo e do comportamento.
Um olhar mais humano e integrado
A Medicina Veterinária Sistêmica não substitui a medicina tradicional.
Ela amplia o olhar. O animal continua precisando de exames, diagnóstico, tratamento e acompanhamento veterinário adequado .Mas, além disso, passamos também a observar o campo emocional e relacional onde ele vive. Porque, muitas vezes, cuidar do animal também envolve cuidar do ambiente emocional ao seu redor.
O que os animais querem nos ensinar?
Talvez os animais bioindicadores estejam nos lembrando de algo simples e profundo:não existe separação absoluta entre os seres que convivem em vínculo. Aquilo que afeta o sistema… também reverbera no animal .E talvez seja justamente por isso que os pets nos toquem de maneira tão intensa. Porque eles não apenas vivem conosco. Muitas vezes… eles sentem conosco.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.



