Por Érika Ricci
Psicóloga
@erikaricci.psico
Enquanto os adultos assistem aos jogos, muitas famílias estão vivendo outro campeonato dentro de casa.
É a corrida pelas figurinhas.
De repente, o assunto do café da manhã é Copa. O assunto da escola é Copa. O assunto do carro é Copa. O assunto antes de dormir é Copa. E, para muitos pais, surge uma preocupação legítima: “Meu filho só fala nisso.”
– Os pedidos se multiplicam;
– Mais um pacote;
– Mais uma figurinha;
– Mais uma troca;
– Mais uma ida à banca;
E não são poucos os pais que começam a se perguntar se estão diante de um excesso de consumismo ou de uma dificuldade dos filhos em lidar com limites.
Mas a psicologia nos convida a olhar um pouco mais fundo, porque, na maioria das vezes, a figurinha não é apenas uma figurinha.
– Ela representa algo muito maior.
As crianças são profundamente influenciadas pelos grupos aos quais pertencem. Diferentemente dos adultos, que já possuem uma identidade mais consolidada, elas ainda estão construindo sua percepção de quem são e de onde pertencem.
Quando toda a sala de aula fala sobre determinado assunto, quando os amigos trocam figurinhas no recreio e compartilham suas conquistas, nasce um desejo natural de participação.
A criança não quer apenas o objeto:
– Ela quer fazer parte da experiência;
– Quer sentir que também tem algo para mostrar;
– Quer participar da conversa;
– Quer compartilhar uma alegria;
– Quer pertencer;
Por trás de muitos pedidos existe uma necessidade emocional silenciosa que, se não for compreendida, pode ser interpretada apenas como insistência ou birra. Isso não significa que os pais devam atender a todos os pedidos.
Muito pelo contrário.
A infância também é o período em que aprendemos que nem todos os desejos precisam ser imediatamente satisfeitos.
Aprender a esperar, lidar com a frustração, compreender limites financeiros e respeitar combinados são habilidades fundamentais para a construção da saúde emocional.
O desafio está justamente em equilibrar acolhimento e limite.
Acolher não é dizer sim para tudo, limitar não é ignorar sentimentos. Um pai ou uma mãe pode perfeitamente dizer:
– “Eu entendo que você gostaria muito de completar o álbum. Sei que isso é importante para você. Mas hoje não será possível comprar mais figurinhas.”
Quando a emoção é reconhecida, a criança aprende que pode sentir sem necessariamente receber tudo aquilo que deseja. E essa é uma das lições mais importantes da vida.
Vivemos em uma geração que frequentemente associa amor à satisfação imediata das vontades. No entanto, a maturidade emocional nasce justamente quando aprendemos que algumas conquistas exigem tempo, espera, paciência e persistência.
Curiosamente, é exatamente isso que um álbum de figurinhas ensina:
– Ninguém completa um álbum em um único dia.
– É preciso procurar;
– Trocar;
– Esperar;
– Repetir;
– Persistir;
– Lidar com as repetidas;
– Celebrar as raras;
Aprender que o processo faz parte da conquista.
Talvez seja por isso que tantas crianças se encantem por essa experiência.
Ela oferece pertencimento, desafio, recompensa e conexão social ao mesmo tempo.
O que os adultos precisam observar é quando a diversão deixa de ser diversão.
Quando surgem níveis elevados de ansiedade, irritação intensa, conflitos constantes, sofrimento exagerado diante das negativas ou dificuldade em falar sobre qualquer outro assunto, pode ser um sinal de que algo emocional merece atenção.
Mas, na maioria das famílias, a Copa pode ser uma oportunidade preciosa:
– Uma oportunidade de conversar;
– De brincar;
– De criar memórias;
– De ensinar valores;
– De fortalecer vínculos.
Porque, no futuro, provavelmente a criança não se lembrará de quantas figurinhas conseguiu comprar. Mas certamente se lembrará de quem estava ao seu lado enquanto vivia essa experiência. E talvez essa seja a conquista mais importante de todas.
Mini currículo:
Érika Ricci é psicóloga clínica, especialista no atendimento de crianças, adolescentes e famílias, fundadora do Espaço Clínico Jardim da Consciência, em São Caetano do Sul. Atua há quase 15 anos auxiliando famílias no desenvolvimento emocional infantil e na construção de vínculos saudáveis. Instagram: @erikaricci.psico.



