Por Ramon Henrique
A comunidade gay não é um bloco só dentro dela tem mil jeitos de existir, de se vestir, de falar, de se relacionar com o próprio corpo e com o mundo.
E dois rótulos que sempre aparecem nessa conversa são o “gay afeminado” e o “gay discreto”.
A real é que nenhum dos dois é melhor ou pior, mas o peso que a sociedade coloca em cima de cada um cria uma diferença enorme na vivência.
O gay afeminado é aquele que não performa masculinidade o tempo todo. Tem a voz, os gestos, as roupas, os assuntos que historicamente foram ligados ao feminino, ele é lido na rua antes mesmo de abrir a boca.
Por um lado, isso traz liberdade: muita gente afeminada fala que se aceitar foi parar de se podar, parar de engrossar a voz no trabalho, parar de andar duro pra não “dar pinta”.
É viver no próprio ritmo, por outro lado, o preço vem rápido, é o cara que mais sofre LGBTfobia escancarada, que ouve piada no ônibus, que tem menos chance em entrevista de emprego, que apanha na escola.
A sociedade pune mais quem ela consegue identificar de longe, e dentro da própria comunidade às vezes rola preconceito também. Aquele famoso “sem afetados” de aplicativo é a prova de que a homofobia se infiltra até entre nós.
Muita gente afeminada cresce ouvindo que precisa “se dar o respeito”, como se existir do seu jeito fosse falta de respeito.
Já o gay discreto é o que passa pela “aprovação” da masculinidade padrão, voz grave, jeito contido, gosta de futebol, bermuda larga, barba.
Ele transita em muito espaço hétero sem ser questionado. Isso dá privilégio: sofre menos violência na rua, a família demora mais pra desconfiar, o chefe não “se incomoda”.
Só que tem um custo interno, pra manter a discrição, muitos se vigiam 24h,controlam a mão, o riso, o olhar, o assunto.
É viver com um filtro ligado, e tem discreto que é discreto porque é assim mesmo, naturalmente, não tá atuando.
O problema começa quando vira obrigação. Quando o cara acha que só vai ser respeitado se caber na caixinha do “homem de verdade”, aí a discrição vira armário com outra porta.
O conflito entre os dois grupos nasce da homofobia que a gente aprendeu, durante muito tempo a sociedade disse que gay podia existir, contanto que não “aparecesse demais”.
Isso ensinou muita gente que ser afeminado é defeito e que ser discreto é proteção, resultado: o discreto às vezes reproduz preconceito pra se distanciar e não ser alvo.
O afeminado às vezes se cansa de ser troféu de coragem dos outros e só queria andar na rua em paz. Nenhum tá errado por ser quem é, o erro tá em achar que um invalida o outro.
No fundo, “afeminado” e “discreto” são só jeitos de lidar com o mesmo mundo que cobra performance de todo homem.
A diferença é que um foi lido e marcado cedo, e o outro conseguiu negociar com o sistema por mais tempo, os dois tomam porrada, só que em momentos diferentes.
O afeminado apanha na escola, o discreto apanha quando resolve namorar, morar junto, assumir, uma hora a conta chega pra todo mundo.
O ideal seria que ninguém precisasse escolher entre ser lido ou ser aceito.
Que o garoto que tem a mão leve pudesse trabalhar em banco sem piadinha, e que o cara másculo pudesse usar rosa sem virar pauta na mesa de bar.
Enquanto isso não acontece, o mínimo é a gente parar de hierarquizar, ser afeminado não é “dar bandeira” e ser discreto não é “se enrustir”.
São só existências. E a comunidade só fica forte de verdade quando para de repetir pra dentro o mesmo julgamento que sofre de fora.
No fim do dia, o que une o gay afeminado e o gay discreto é igual: os dois só querem amar em paz, sem ter que dar satisfação do jeito que andam, falam ou vestem.
O resto é ruído que a gente aprendeu e pode desaprender.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista IstoÉ/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



