Por Dra Thayse Santos
@dra.thaysesantos
@veridiana.mediciapericial
Nos últimos anos, poucas palavras passaram a fazer parte do nosso cotidiano tão rapidamente quanto “ansiedade”. Ela aparece nas conversas, nas redes sociais, nos consultórios médicos e, cada vez mais, nos processos judiciais e previdenciários. Mas uma dúvida permanece: Ansiedade pode realmente incapacitar uma pessoa?
A resposta é: sim, pode. Mas nem sempre. E entender essa diferença é fundamental.
A ansiedade é uma reação natural do organismo diante de situações de preocupação, medo ou expectativa. Em níveis normais, ela faz parte da vida e, até, desempenha um papel importante na adaptação aos desafios do dia a dia. O problema surge quando os sintomas se tornam intensos, frequentes e persistentes. Palpitações, falta de ar, sensação de aperto no peito, insônia, dificuldade de concentração, irritabilidade, medo excessivo e crises de pânico são algumas das manifestações que podem acompanhar os transtornos de ansiedade. Em casos mais graves, esses sintomas passam a interferir diretamente na rotina da pessoa.
Atividades simples tornam-se difíceis. O desempenho profissional pode ser comprometido. Relacionamentos são afetados. E aquilo que antes era apenas uma preocupação transforma-se em sofrimento real. É justamente nesse ponto que surge a discussão pericial.
Muitas pessoas acreditam que basta possuir um diagnóstico de ansiedade para ser considerada incapaz. Mas a medicina pericial não avalia apenas o nome da doença. Ela avalia suas consequências. Na perícia médica, a pergunta principal não é apenas “qual é o diagnóstico?”, mas sim: “Como essa condição afeta a capacidade funcional dessa pessoa?”
Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar situações completamente diferentes. Enquanto uma mantém suas atividades habituais com tratamento adequado, outra pode enfrentar limitações significativas que impactam sua capacidade laboral e sua autonomia. Por isso, a avaliação pericial considera diversos elementos: histórico clínico, documentos médicos, tratamentos realizados, evolução do quadro, sintomas apresentados e repercussões práticas na vida do indivíduo.
A incapacidade não é definida apenas pela existência da doença. Ela é definida pelo impacto que essa doença produz. E essa é uma das razões pelas quais a saúde mental vem ocupando um espaço cada vez mais importante na medicina moderna. Hoje sabemos que transtornos emocionais podem gerar limitações tão relevantes quanto muitas doenças físicas. Reconhecer isso não significa banalizar os diagnósticos. Significa compreender que saúde envolve corpo e mente, funcionando de forma integrada.
Então, voltamos à pergunta inicial: Ansiedade pode incapacitar? Sim, pode. Mas cada caso deve ser analisado de forma individual, técnica e cuidadosa, considerando não apenas o diagnóstico, mas a realidade vivida por aquela pessoa. Porque, na medicina pericial, mais importante do que o nome da doença é entender seus efeitos na vida real.
Dra. Thayse Santos, é médica especialista e atuante nas áreas de Perícia Médica Judicial, saúde mental, beleza e qualidade de vida. Atua como perita médica junto ao Poder Judiciário, realizando avaliações técnicas em processos judiciais com enfoque ético, humanizado e baseado em evidências científicas.
Nesta coluna, busca aproximar o público do universo da perícia médica por meio de uma linguagem clara, acessível e acolhedora, traduzindo temas técnicos para o cotidiano das pessoas.



