Por Jéssica Monteiro Lima
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Quando cuidar também dá medo. Essa semana eu fiz um exame que vinha adiando, era um exame relacionado à minha própria jornada de fertilidade e, embora eu soubesse que precisava realizá-lo, fui postergando. Em outro momento, também adiei o início de uma medicação porque tive medo de que ela pudesse interferir nas minhas tentativas.
E isso me fez pensar em algo que tenho escutado com frequência das mulheres que acompanho. Uma está com dificuldade para manter as vitaminas. Outra perdeu a motivação para cuidar da alimentação ou praticar atividade física. Outra ainda não conseguiu reunir coragem para voltar ao ginecologista.
Não é simplesmente “falta de disciplina”.
Quando viver uma tentativa de engravidar envolve meses ou anos de espera, exames, consultas, medicamentos, expectativas e frustrações, alguns cuidados podem começar a carregar um significado emocional muito maior. Tomar uma vitamina pode lembrar que existe um tratamento, marcar uma consulta pode significar ter que ouvir novamente alguma notícia difícil, fazer um exame pode despertar o medo de descobrir algo que você não gostaria de saber. E, nesse contexto, adiar pode trazer um pequeno alívio. Por algumas horas ou alguns dias, você não precisa pensar naquele assunto.
Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, esse movimento pode ser compreendido como um ciclo de evitação: eu sinto medo, evito aquilo que me assusta, sinto alívio naquele momento e, sem perceber, o medo ganha ainda mais força. Por isso, quando uma mulher me diz “eu não estou conseguindo cuidar de mim como antes”, minha primeira pergunta não é: “Por que você não está fazendo?” É: “O que de pior você imagina que pode acontecer se você fizer isso agora?” Essa pergunta muda muita coisa.
Porque, antes de pensar em uma estratégia, precisamos entender o que está por trás do comportamento. É medo? Cansaço? Desânimo? Frustração? A sensação de que “não adianta mais”? O pensamento de que “se eu fizer tudo certinho e mesmo assim não acontecer, vou sofrer ainda mais”? A partir daí, podemos construir um caminho diferente.
Não é necessário recuperar todos os cuidados de uma vez. Na TCC, trabalhamos com passos possíveis e concretos. Em vez de pensar “preciso voltar a cuidar de tudo”, podemos escolher uma pequena ação que está sob nosso controle hoje:
Marcar a consulta.
Separar a vitamina junto ao café da manhã.
Retomar uma caminhada curta.
Conversar com o médico sobre uma dúvida que está causando medo.
Pedir ao parceiro ou a alguém de confiança que ajude a lembrar de um cuidado.
E, principalmente, observar os pensamentos que aparecem nesse processo e perguntar: “Esse pensamento está me ajudando a enfrentar ou está me fazendo evitar?” Cuidar de si durante uma jornada de fertilidade não significa fazer tudo perfeitamente. Também não significa acreditar que, se você seguir todas as orientações, necessariamente conseguirá engravidar. Fertilidade não é uma prova de esforço individual.
Cuidar significa continuar oferecendo a si mesma atenção, informação e suporte, mesmo quando o caminho não está acontecendo como você gostaria. E se você percebeu que vem se afastando dos seus cuidados, não precisa transformar isso em mais um motivo para se culpar. Minha mensagem para você hoje é: comece pequeno, comece pelo que é possível e, se estiver difícil demais fazer sozinha, procure ajuda.
A saúde emocional também faz parte do cuidado durante a jornada de fertilidade. Estudos mostram benefícios de intervenções psicológicas, para reduzir sofrimento, ansiedade, depressão e estresse relacionados à infertilidade. Retomar o cuidado não começa com coragem para fazer tudo, pode começar com coragem suficiente para dar o próximo pequeno passo.
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Sobre a autora
Jéssica Samanta Monteiro Miranda Lima é Psicóloga Perinatal, com atuação voltada à saúde mental da mulher. Acompanha mulheres em diferentes fases da vida, desde a jornada da fertilidade até os desafios emocionais da gestação, parto, pós-parto, e busca por uma maternidade mais leve oferecendo escuta sensível e embasamento técnico e científico.
Formação acadêmica
Bacharel em Psicologia – Universidade do Grande ABC
MBA em Gestão estratégica do Capital Humano – FMU
Pós-graduação Psicopedagogia – Universidade Metodista
Pós-graduação Aperfeiçoamento em Psicologia Perinatal e da Parentalidade – Instituto MaterOnline



