Por Charles Pires
Talvez nunca tenhamos tido acesso a tantas vidas quanto temos hoje.
Em poucos minutos, vemos alguém viajando, outro comemorando uma promoção, um casal aparentemente apaixonado, uma família sorrindo, alguém exibindo o corpo que conquistou ou celebrando mais uma vitória profissional. Então desligamos a tela e voltamos para a nossa vida — com boletos, dúvidas, cansaço, inseguranças e problemas que não cabem em uma fotografia.
E, quase sem perceber, fazemos uma comparação bastante injusta: colocamos os bastidores da nossa vida ao lado da vitrine da vida dos outros. O resultado costuma ser previsível. Parece que estamos atrasados.
A comparação não nasceu com as redes sociais. O ser humano sempre observou o outro para compreender sua própria posição no mundo. Comparamos aparência, inteligência, dinheiro, relacionamentos, carreira e reconhecimento. Em certa medida, observar outras pessoas pode até servir como referência e inspiração.
O problema começa quando a vida do outro deixa de ser referência e passa a ser régua para medir a nossa.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, aprendemos que nossas emoções não dependem apenas dos acontecimentos, mas também da interpretação que fazemos deles. Duas pessoas podem olhar para a mesma situação e construir significados completamente diferentes.
Ao ver a conquista de alguém, uma pessoa pode pensar: “Que interessante. Talvez eu também consiga chegar lá.”
Outra pode pensar: “Todo mundo está avançando, menos eu.”
A publicação é a mesma. O significado atribuído a ela é que mudou. E há uma armadilha nessa comparação: normalmente temos muito mais informações sobre nossos próprios fracassos do que sobre os fracassos dos outros.
Conhecemos as nossas contas atrasadas, as discussões dentro de casa, os projetos que não deram certo, as inseguranças que escondemos e as noites em que pensamos em desistir. Do outro, muitas vezes, conhecemos uma fotografia.
É como assistir aos melhores momentos de uma partida e compará-los com os noventa minutos do nosso próprio jogo. Naturalmente, nossa vida parecerá menos interessante.
A filosofia há muito tempo nos convida a pensar sobre o perigo de construir uma existência baseada em referências externas. Quando nosso valor depende constantemente da comparação, sempre haverá alguém mais rico, mais bonito, mais reconhecido ou aparentemente mais feliz.
Uma corrida assim não possui linha de chegada.
Talvez por isso algumas conquistas percam o sabor tão rapidamente. Você desejava determinado emprego. Conseguiu. Então descobriu alguém em uma posição melhor. Queria comprar alguma coisa. Comprou. Logo apareceu alguém com algo mais caro. Queria determinado número de seguidores. Alcançou. Depois encontrou alguém com dez vezes mais.
O problema não está em querer crescer. Desejar uma vida melhor pode nos movimentar. O problema surge quando deixamos de perguntar “O que é importante para mim?” e começamos a perguntar “O que preciso ter para não parecer inferior aos outros?” São perguntas parecidas, mas levam a vidas muito diferentes.
Talvez uma das formas mais silenciosas de sofrimento seja conquistar coisas que nunca desejamos verdadeiramente apenas porque aprendemos que deveríamos desejá-las. É como subir uma escada durante anos e, ao chegar ao último degrau, perceber que ela estava apoiada na parede errada.
Por isso, de vez em quando, precisamos revisar nossas próprias medidas de sucesso.
O que significa uma vida boa para você?
Quanto realmente é suficiente?
Quais conquistas fazem sentido para sua história e quais existem apenas para serem vistas pelos outros?
Essas perguntas não possuem respostas universais.
Para alguém, sucesso pode significar construir uma grande empresa. Para outro, ter tempo para buscar os filhos na escola. Alguém deseja reconhecimento público; outra pessoa deseja uma vida simples e tranquila. Nenhuma dessas escolhas precisa ser menor apenas porque recebe menos aplausos.
Talvez amadurecer também seja descobrir que nem tudo aquilo que impressiona os outros precisa fazer sentido para nós. Isso não significa deixar de admirar pessoas, abandonar ambições ou fingir que não nos importamos com reconhecimento. Somos seres sociais, e o olhar do outro tem importância.
A questão é não entregar a ele a responsabilidade de determinar nosso valor.
Na próxima vez em que olhar para a vida de alguém e pensar “eu deveria estar mais longe”, talvez valha a pena interromper o pensamento por alguns segundos.
Você conhece realmente o caminho daquela pessoa?
Sabe o preço que ela pagou?
Conhece suas perdas, seus medos e aquilo que acontece quando a câmera é desligada?
Provavelmente não. Então volte os olhos para a única trajetória que você conhece por inteiro: a sua.
Compare-se menos com aquilo que os outros mostram e um pouco mais com quem você era algum tempo atrás. Talvez ainda falte muito. Mas talvez você também descubra que já percorreu uma distância que, ocupado demais olhando para a estrada dos outros, ainda não havia percebido.
A vida do outro pode parecer melhor porque você vê aquilo que ele escolheu mostrar. A sua parece mais difícil porque você conhece tudo aquilo que precisou enfrentar.
E talvez felicidade não seja ter uma vida que desperte inveja quando vista de fora.
Talvez seja construir uma vida que faça sentido quando vivida por dentro.
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta



