Por Bia Rossatti
@biarossattiterapeuta
“Você conhece algum homem interessante?”
A pergunta pode até parecer uma brincadeira entre amigas, mas ganhou uma nova versão nas conversas sobre relacionamentos: “A pista está salgada.”
A expressão virou uma maneira bem-humorada de falar sobre a dificuldade de encontrar alguém disponível, interessante e disposto a viver uma relação de verdade.
Em 2026, ela ganhou ainda mais visibilidade. Durante o Carnaval, mulheres famosas como Laura Fernandez, Paolla Oliveira, Grazi Massafera e Fernanda Paes Leme comentaram publicamente sobre a dificuldade de encontrar homens para paquerar. Laura chegou a dizer que, para uma mulher heterossexual, estava ainda mais difícil. (UOL)
Mas será que a pista está realmente salgada?
Os dados mostram que a história é mais complexa.
Não é simplesmente uma questão de “falta de homem”
O Brasil tem, de fato, mais mulheres do que homens.
Segundo o Censo 2022, eram aproximadamente 104,5 milhões de mulheres e 98,5 milhões de homens, uma diferença de cerca de 6 milhões de pessoas. Para cada 100 mulheres, havia 94,2 homens. (Educa IBGE)
Mas existe um detalhe importante: isso não significa que exista uma “falta de homens disponíveis” para todas as mulheres.
A diferença populacional é influenciada principalmente pela maior mortalidade masculina ao longo da vida. A partir dos 25 anos, as mulheres já passam a ser maioria em todas as regiões brasileiras. (Educa IBGE)
Portanto, transformar esses números em “não existem homens suficientes” seria simplificar demais a questão.
O problema pode estar menos na quantidade e mais na disponibilidade para o tipo de relacionamento que cada pessoa procura.
E é aí que a conversa fica interessante.
O que as mulheres estão procurando?
Uma pesquisa internacional publicada na revista Human Nature, com 17.254 mulheres heterossexuais solteiras, de 147 países e entre 18 e 67 anos, investigou preferências para relacionamentos de longo prazo.
Os resultados encontraram pouca ou nenhuma diferença relacionada à idade na importância atribuída a características como gentileza e capacidade de oferecer apoio, segurança financeira, atratividade e educação/inteligência. (Springer Nature Link)
Ou seja: não existe evidência simples de que mulheres estejam, com o passar dos anos, simplesmente “baixando suas exigências”.
Na verdade, para muitas mulheres, a questão pode ser justamente outra:
“Eu já sei o que não quero viver novamente.”
Depois de uma separação, de um casamento longo ou de experiências frustrantes, algumas mulheres podem estar menos dispostas a entrar em uma relação apenas para não ficarem sozinhas.
Isso muda completamente a lógica do encontro.
Estar solteira deixou de ser sinônimo de estar esperando alguém
Durante muito tempo, a solteira foi apresentada socialmente como alguém que estava “à espera”.
Espera do casamento.
Espera do homem certo.
Espera de alguém que viesse completar sua vida.
Essa visão vem mudando.
Uma pesquisa qualitativa publicada em 2024 analisou entrevistas com mulheres solteiras que nunca haviam se casado e mostrou justamente uma transformação na maneira como algumas mulheres compreendem a própria solteirice: não necessariamente como uma etapa de espera por um relacionamento, mas como uma condição de vida que pode envolver autonomia, liberdade, identidade e realização. (Sage Journals)
Isso produz uma consequência importante: o relacionamento precisa fazer sentido para entrar na vida dela.
Não basta mais simplesmente existir alguém interessado.
É preciso existir compatibilidade.
E existe outro fenômeno: menos disposição para aceitar qualquer relação
Uma pesquisa do Pew Research Center com adultos solteiros nos Estados Unidos mostrou que, em 2022, 42% dos solteiros estavam procurando algum tipo de experiência romântica, seja relacionamento sério ou encontros casuais.
Mas havia uma diferença importante entre homens e mulheres: entre os solteiros que estavam procurando, as mulheres eram mais propensas a dizer que buscavam exclusivamente um relacionamento comprometido. (Pew Research Center)
Embora esses dados sejam dos Estados Unidos e não possam ser automaticamente aplicados ao Brasil, eles ajudam a ilustrar uma transformação mais ampla: estar disponível para conhecer alguém não significa estar disponível para qualquer tipo de relação.
E talvez seja justamente aí que muitas mulheres sintam que a pista está salgada.
Elas não estão necessariamente procurando “qualquer homem”.
Estão procurando alguém que reúna disponibilidade, maturidade, interesse, compatibilidade e disposição para construir.
E essa combinação é naturalmente menor do que simplesmente encontrar alguém solteiro.
O paradoxo da escolha
Também existe uma contradição interessante.
Nunca tivemos tantas possibilidades de conhecer pessoas.
Aplicativos, redes sociais, eventos, grupos, viagens, academia, trabalho, amigos em comum…
A possibilidade de escolha aumentou.
Mas isso não significa necessariamente que ficou mais fácil escolher.
Em ambientes digitais, podemos ter a sensação de que existe sempre alguém melhor logo depois do próximo perfil.
Ao mesmo tempo, pesquisas recentes discutem o chamado “dating burnout”, ou esgotamento provocado pela dinâmica dos aplicativos de relacionamento. Uma pesquisa divulgada pelo Bumble entre jovens americanos apontou níveis elevados de cansaço com esse tipo de experiência. (Jornalismo IESB)
Mais opções podem significar mais oportunidades.
Mas também podem significar mais comparação, mais frustração e mais dificuldade para sustentar o investimento emocional necessário para conhecer alguém de verdade.
Talvez a pista esteja salgada por outro motivo
Existe ainda uma mudança demográfica importante acontecendo no Brasil.
Os casamentos estão acontecendo mais tarde.
Segundo o IBGE, em 2024 a idade média das mulheres que se casaram com homens foi de 29,3 anos, enquanto entre os homens foi de 31,5 anos.
E o número de pessoas que se casam novamente também aumentou.
Em 2004, 13,5% dos casamentos entre pessoas de sexos diferentes envolviam pelo menos um cônjuge divorciado ou viúvo. Em 2024, essa proporção chegou a 31,1%. (Agência Gov)
Isso significa que o mercado afetivo depois dos 40, 50 ou 60 anos não pode ser analisado com a mesma lógica dos 20.
São pessoas que chegam aos novos relacionamentos carregando histórias.
Casamentos anteriores.
Filhos.
Patrimônio.
Traumas.
Aprendizados.
Medos.
E, principalmente, uma consciência maior sobre aquilo que não desejam repetir.
Então, por que tantas mulheres dizem que “a pista está salgada”?
Talvez porque a pergunta tenha mudado.
Antes, muitas mulheres perguntavam: “Será que alguém vai me escolher?”
Hoje, cada vez mais mulheres parecem perguntar: “Eu escolheria viver essa relação?”
Essa mudança altera completamente a experiência de estar solteira.
A mulher que já construiu uma carreira, criou filhos, atravessou um casamento, uma separação ou uma reconstrução de vida pode não estar procurando alguém para completar aquilo que falta.
Ela pode estar procurando alguém que acrescente ao que já existe.
E isso torna o encontro mais seletivo.
Não necessariamente porque homens ou mulheres estejam “piores”.
Mas porque os critérios para permanecer em uma relação podem estar diferentes.
A pista está salgada ou estamos mais conscientes?
Talvez as duas coisas possam ser verdade.
Pode ser difícil encontrar alguém disponível.
Pode ser difícil encontrar alguém compatível.
Pode ser difícil encontrar alguém emocionalmente preparado para uma relação.
E pode ser igualmente difícil estar disponível para conhecer alguém sem transformar cada encontro em uma avaliação definitiva sobre o futuro.
Por isso, talvez a questão mais interessante não seja: “Onde estão os homens?”
Mas: “O que estamos procurando quando procuramos alguém?”
Porque encontrar uma pessoa é relativamente simples.
Construir uma relação possível é outra história.
E, depois de tantos relacionamentos que começam com entusiasmo e terminam em frustração, talvez a verdadeira mudança esteja justamente aí: as mulheres não querem apenas estar acompanhadas. Muitas querem estar em uma relação que faça sentido.
E quando o padrão muda, a pista pode mesmo parecer mais salgada.
Mas talvez ela esteja apenas mais criteriosa.
Fontes
* IBGE — Censo Demográfico 2022: população por sexo e idade. (Educa IBGE)
* IBGE — Estatísticas do Registro Civil 2024: casamentos e divórcios. (Agência Gov)
* Pew Research Center — comportamento de adultos solteiros e busca por relacionamentos. (Pew Research Center)
* Human Nature — estudo internacional sobre preferências de parceiras em relacionamentos de longo prazo. (Springer Nature Link)
* Journal of Social and Personal Relationships — estudo sobre solteirice, amor e autonomia feminina. (Sage Journals)
* UOL/gshow — repercussão da expressão “a pista está salgada” entre mulheres durante o Carnaval de 2026. (UOL)



