Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Às vezes, envelhecer não é apenas aprender a conviver com um corpo que muda. É também descobrir quem somos quando deixamos de ocupar o lugar que sempre ocupamos na vida dos outros.
Durante muito tempo, uma mãe pode ter sido aquela que cuidava de tudo. Um pai, aquele que resolvia os problemas. Um cônjuge, a companhia permanente. Um cuidador, a presença indispensável na rotina. Mas os anos passam, os filhos constroem suas próprias vidas, os relacionamentos se transformam e algumas funções deixam de fazer sentido. Nesse momento, pode surgir uma pergunta silenciosa: “E agora, quem sou eu?”
Penso nisso especialmente quando se aproxima o Dia Internacional da Pessoa Idosa. Em minha escuta clínica, observo como muitas pessoas chegam à maturidade carregando uma dor que nem sempre conseguem nomear: sentem-se sós, mesmo cercadas de gente. Não necessariamente porque lhes falte amor, mas porque, durante muito tempo, confundiram amor com disponibilidade absoluta, cuidado com controle e presença com dependência.
Lembro-me de uma senhora que dizia, com um certo constrangimento, que não conseguia tomar nenhuma decisão sem consultar a filha. A filha era atenciosa, presente e bem-intencionada. Ainda assim, aquela mulher começava a perceber que havia deixado de perguntar a si mesma o que desejava. Escolhia o restaurante conforme a preferência dos filhos, adiava viagens para não preocupar ninguém e permanecia em uma relação desgastada porque temia “dar trabalho” caso precisasse reorganizar a própria vida.
Em outra situação, um homem viúvo me contou que seus filhos o visitavam todos os domingos. Ele agradecia, sorria e dizia que estava tudo bem. Mas, ao falar com mais liberdade, revelou que esperava a semana inteira por aquelas poucas horas. Quando os filhos iam embora, a casa parecia ficar ainda maior. Aos poucos, ele começou a construir pequenos compromissos próprios: voltou a frequentar uma biblioteca, retomou o violão e passou a caminhar com um vizinho. Não deixou de amar os filhos. Apenas deixou de colocar toda a sua vida dentro das visitas deles.
Essa é uma diferença importante: autonomia afetiva não significa viver sem precisar de ninguém. Também não significa rejeitar ajuda, esconder fragilidades ou transformar independência em isolamento. Significa poder receber cuidado sem entregar completamente ao outro o comando da própria existência.
Na maturidade, os vínculos podem ser reinventados. Um filho pode continuar sendo filho, sem precisar ocupar o lugar de pai ou mãe. Um cônjuge pode ser companhia, sem se tornar a única fonte de alegria. Um cuidador pode oferecer assistência, sem apagar os desejos e as escolhas da pessoa cuidada.
A virada, muitas vezes, acontece quando percebemos que continuar amando não exige continuar desempenhando o mesmo papel. Posso ser mãe sem resolver tudo. Posso ser pai sem sustentar emocionalmente todos ao meu redor. Posso amar meu companheiro sem abandonar aquilo que me faz singular. Posso aceitar ajuda e, ainda assim, continuar participando das decisões sobre a minha própria vida.
Talvez envelhecer também seja isso: trocar a necessidade de ser indispensável pela liberdade de ser verdadeiro.
A autonomia afetiva não tem idade determinada. Ela pode começar aos vinte, aos cinquenta, aos oitenta. Começa quando eu me escuto antes de responder ao desejo dos outros; quando reconheço meus limites; quando compreendo que uma relação saudável não me diminui para me manter acompanhado.
Neste Dia Internacional da Pessoa Idosa, eu convido você a olhar para os vínculos que construiu e perguntar, com sinceridade: onde existe amor, e onde existe apenas medo de ficar só?
Se quiser, compartilhe sua história. Talvez uma pequena escolha sua uma viagem, uma amizade, um limite ou um novo começo possa lembrar alguém de que nunca é tarde para voltar a habitar a própria vida.
Porque amar os outros é bonito. Mas continuar pertencendo a si mesmo também é uma forma profunda de amor.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353
Credito da imagem: Sue H.



