Por Eneida Bonanza
Quando perguntamos a uma criança o que ela quer ser quando crescer, ela responde com os olhos brilhando e a alma dançando: Médica, bailarina, astronauta, cantora, veterinária, presidente, atriz. Tudo ao mesmo
tempo.
E a voz que vem de dentro é clara: “Eu posso ser tudo o que eu quiser.”
Essa resposta não vem de um excesso de fantasia.
Vem de um excesso de alma.
De uma alma que ainda não foi podada até caber numa profissão, num
currículo, num CPF.
Mas um dia, alguém diz:
— Não dá para ser tudo.
— Escolha uma coisa só.
— Não se pode ter tudo na vida.
— Isso não é real.
E a mágica começa a escorrer pelos dedos. A criança que sonhava com asas, começa a cortar pedaços de si para caber no uniforme da vida adulta.
Vai deixando de lado a leveza, a pureza, a certeza inabalável de que tudo é possível.
Troca a expansão por contenção, a liberdade por segurança, a alegria por adequação.
E o mais triste é que quem diz para ela abandonar os sonhos… também foi uma criança que sonhava.
Mas que ouviu os mesmos “nãos”, e aprendeu a chamar isso de maturidade.
Só que agora, esse adulto que se perdeu de si mesmo acha que está protegendo a criança.
Mas como alguém que não está bem pode saber o que é o melhor?
Se ele vive cansado, frustrado, preso a uma rotina sem alma… como pode acreditar que “ser como ele” é o melhor caminho para aquela criança que só
queria voar?
Quanto de nós foi ficando pelo caminho?
Quantas partes fomos deixando de lado para sermos aceitos, elogiados, reconhecidos, promovidos?
E será que essa criança ainda mora em nós?
Ou será que já a perdemos de vista completamente?
Talvez ela não tenha ido embora.
Talvez ela só tenha se escondido.
Em algum lugar entre os ossos e os sonhos.
Esperando uma chance de voltar a sorrir com o corpo todo, de rir alto sem pedir desculpas, de criar sem censura, de imaginar sem limites, de viver sem medo de ser.
Talvez tudo o que ela precise seja de um espaço para expandir novamente.
Um espaço onde o adulto diga:
— Me perdoa por ter esquecido de você.
— Eu achei que crescer era deixar você pra trás.
— Mas agora eu sei que crescer de verdade… é te levar comigo.
Porque um adulto que preserva a sua criança interior é mais criativo, mais leve, mais potente, mais livre, mais capaz de amar, de se reinventar, de viver com sentido.
A criança que você foi não desapareceu.
Ela só precisa de permissão.
Permissão para voltar a ser.
E talvez, exatamente agora, lendo isso, ela esteja espiando por dentro de você…
esperando que você diga:
— Vem. Eu estou pronto para brincar de viver outra vez.
Te convido a um Exercício Terapêutico de Reencontro com a Criança Interior
“Carta para Quem Ainda Mora em Mim”
Duração sugerida: 15 a 20 minutos
Material: Papel, caneta e um ambiente silencioso.
Passo a passo:
1. Prepare o ambiente.
Sente-se confortavelmente, com os pés tocando o chão. Feche os olhos por alguns instantes. Inspire profundamente três vezes. Sinta o ar entrar e sair, como se abrisse espaço dentro de si.
2. Visualização breve:
Imagine-se caminhando por um jardim. Nesse jardim, há uma criança. Ela está sentada, brincando sozinha. Quando você se aproxima, percebe que é você… com 4, 5, 6 anos. Observe como ela está vestida, o que está fazendo, e como reage à sua presença.
3. Escreva uma carta para essa criança.
No papel, escreva como se estivesse falando com ela. Algumas perguntas que podem ajudar:
– O que você sonhava ser?
– Quando foi que deixaram de te ouvir?
– Em que momento você se escondeu dentro de mim?
– O que eu posso fazer hoje para te trazer de volta?
– O que você ainda deseja viver comigo?
4. Leia a carta em voz alta para si mesmo.
Se puder, abrace-se durante a leitura. Sinta-se acolhendo o que ficou esquecido.
5. Encerramento:
Ao final, diga em voz alta:
“Eu te vejo. Eu te escuto. Eu te amo. E te levo comigo, para onde quer que eu vá.”



