Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Há perdas que não cabem em uma certidão de óbito. Mesmo assim, deixam a casa em silêncio, o corpo cansado e uma saudade que não encontra onde descansar.
Logo depois do Dia de Finados, eu fico pensando em quantas pessoas atravessam o próprio luto sem que ninguém perceba. Algumas perderam alguém para a morte. Outras perderam uma relação que nunca chegou a ser oficial, um futuro que parecia possível, uma amizade que se desfez sem explicação ou a convivência com alguém que continua vivo mas já não está mais presente da mesma maneira.
É difícil sofrer por algo que os outros não reconhecem.
Talvez você tenha se afastado de uma pessoa que amava porque permanecer naquela relação estava machucando demais. Para quem olha de fora, parece simples: “Mas vocês nem namoravam”. Ou então: “Essa pessoa está viva, você ainda pode falar com ela”. Como se a dor dependesse de um título, de uma aliança, de fotografias publicadas ou de uma despedida diante de muitas pessoas.
Eu me lembro de como, às vezes, alguém conta o fim de uma relação e imediatamente sente que precisa se justificar. Explica quanto tempo durou, o que aconteceu, por que não deu certo. Como se precisasse apresentar provas para ter autorização de sofrer. Em outras situações, a pessoa evita até mencionar a perda. Continua trabalhando, respondendo mensagens e sorrindo quando necessário, enquanto por dentro tenta entender o que fazer com todas as palavras que não foram ditas.
Existe também o luto por uma versão de nós mesmos.
A pessoa que eu era antes de determinada decepção. O projeto de vida que abandonei. A esperança que precisei deixar para trás. O vínculo que me fazia acreditar que, dessa vez, eu seria escolhido, cuidado, reconhecido. Quando tudo isso termina, não perdemos apenas alguém. Perdemos uma narrativa sobre o futuro.
E ninguém costuma levar flores para esse tipo de despedida.
Por isso, muitas vezes, eu aprendo a esconder a própria dor antes mesmo que alguém peça. Digo que estou bem. Ocupo meus dias. Finjo que não me importa. Tento parecer maduro, forte, resolvido. Mas sentir não é fracassar. Sentir é reconhecer que algo teve importância.
Validar o próprio luto não significa permanecer preso ao que acabou. Significa parar de lutar contra a realidade daquilo que foi vivido. Eu posso aceitar que uma relação me marcou e, ainda assim, escolher não voltar. Posso sentir saudade e continuar caminhando. Posso amar alguém que não soube me amar como eu precisava, sem transformar esse amor em motivo para me abandonar.
Talvez essa seja uma das formas mais profundas de autonomia afetiva: não esperar que o outro reconheça a minha dor para que eu possa respeitá-la. Nem todo mundo compreenderá o que perdi. Algumas pessoas minimizarão. Outras dirão que já passou. Mas eu não preciso entregar a elas a autoridade sobre o que sinto.
Há despedidas que acontecem sem abraço, sem última conversa e sem uma data oficial. Ainda assim, elas merecem cuidado. Merecem tempo. Merecem um lugar dentro da nossa história.
E, quando ninguém valida o meu luto, eu posso começar por mim.
Posso dizer, com honestidade: “Isso foi importante. Eu perdi alguma coisa. Está doendo.” Às vezes, essa frase simples abre a primeira janela depois de muito tempo em um quarto fechado.
Nem todo luto será reconhecido pelo mundo. Mas toda dor que foi vivida merece ser escutada por quem a carrega.
Porque algumas despedidas não encerram apenas uma história. Elas devolvem a mim a possibilidade de continuar desta vez, sem precisar negar o que senti para provar que estou seguindo em frente.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
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