Por Dayse Batista
@dayseperita
O que realmente nos assusta em um crime bárbaro? A violência praticada, a frieza de quem a executou ou a possibilidade de que o responsável seja alguém aparentemente comum?
Quando nos deparamos com crimes marcados por extrema crueldade, uma palavra surge quase imediatamente nas conversas, nas manchetes e nos julgamentos populares: psicopatia.
Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: seria possível reconhecer traços de um comportamento psicopático por meio dos vestígios deixados em uma cena de crime?
É aqui que a psicologia forense, a criminologia e a perícia criminal encontram um dos seus campos mais complexos de investigação.
A psicopatia envolve um conjunto de características de personalidade que pode incluir manipulação, insensibilidade afetiva, ausência de remorso e comportamentos antissociais. Entretanto, nem toda pessoa com traços psicopáticos pratica crimes violentos, assim como nem todo autor de um crime brutal apresenta psicopatia.
A violência, por mais extrema que seja, não constitui diagnóstico psicológico.
QUANDO O COMPORTAMENTO DEIXA VESTÍGIOS
Todo crime acontece em determinado contexto, envolve ações e pode produzir vestígios materiais capazes de revelar aspectos de sua dinâmica.
A disposição de objetos, a distribuição de manchas de sangue, os tipos e a localização das lesões, os sinais de contenção, a sequência dos eventos e as possíveis tentativas de alteração da cena podem oferecer informações relevantes sobre o que aconteceu.
Imagine uma cena em que a vítima apresenta múltiplas lesões, sinais de imobilização e evidências de que a violência continuou mesmo após sua capacidade de resistência ter sido reduzida.
Esses elementos podem levantar hipóteses sobre a dinâmica da agressão, o controle exercido sobre a vítima e a sequência dos acontecimentos.
Mas seriam suficientes para afirmar que o agressor é psicopata?
Não.
A perícia pode identificar e interpretar vestígios compatíveis com determinadas ações. A análise comportamental pode contribuir para a formulação de hipóteses investigativas. Já a avaliação de características psicopáticas exige procedimentos psicológicos ou psiquiátricos especializados, instrumentos apropriados e informações que ultrapassam a cena do crime.
É fundamental compreender essa diferença: a perícia reconstrói acontecimentos; não transforma a brutalidade em diagnóstico.
A FRIEZA PODE SER UMA ESTRATÉGIA, MAS NÃO É UMA PROVA
Outro aspecto que desperta atenção é o comportamento do suspeito após o crime.
Há pessoas que choram, outras permanecem em silêncio, algumas apresentam narrativas contraditórias e outras parecem demonstrar absoluta tranquilidade.
No imaginário popular, a ausência de emoção costuma ser interpretada como sinal de psicopatia ou até como demonstração de culpa.
Entretanto, reações humanas diante de situações extremas são influenciadas por diversos fatores, incluindo medo, estresse, características individuais e circunstâncias específicas.
Por isso, a análise pericial deve buscar elementos objetivos que permitam confrontar versões.
Uma narrativa pode ser comparada com registros de câmeras, dados de localização, vestígios biológicos, exames de lesões, registros digitais e outros elementos tecnicamente verificáveis.
A questão central deixa de ser simplesmente como alguém aparenta se sentir e passa a ser: o que essa pessoa afirma é compatível com aquilo que as evidências demonstram?
Essa distinção pode ser decisiva para evitar conclusões precipitadas.
PADRÕES CRIMINAIS: O QUE SE REPETE PODE REVELAR?
Em investigações de crimes violentos, especialmente quando existe suspeita de conexão entre diferentes ocorrências, a análise de padrões pode assumir importância estratégica.
A escolha das vítimas, os meios empregados, a abordagem, os mecanismos de contenção e determinadas ações repetidas podem auxiliar na identificação de semelhanças entre eventos.
Na análise comportamental, costuma-se distinguir o modus operandi, relacionado aos procedimentos utilizados para executar o crime, de comportamentos que podem apresentar significado psicológico particular para o autor.
Entretanto, essas interpretações exigem cautela.
Nem toda repetição representa uma característica psicológica estável. Nem toda violência excessiva indica sadismo. E nenhuma dessas observações, isoladamente, permite estabelecer psicopatia ou identificar um autor.
É nesse momento que a perícia científica funciona como um importante limite contra a especulação.
A comparação de vestígios, os exames laboratoriais, a análise da dinâmica dos fatos e a reconstrução cronológica podem corroborar ou contrariar hipóteses sobre possíveis conexões entre crimes.
O MEDO NÃO PODE CONDUZIR A INVESTIGAÇÃO
Existe algo particularmente perigoso quando investigamos crimes bárbaros: a necessidade emocional de encontrar rapidamente um culpado.
Quanto maior a repercussão e a crueldade, maior pode ser a pressão por respostas.
E, quando alguém apresenta comportamento considerado estranho, demonstra pouca emoção ou possui antecedentes que despertam suspeitas, torna-se fácil construir uma narrativa aparentemente convincente.
Mas a ciência não trabalha com personagens. Trabalha com evidências.
Um perfil psicológico não substitui uma impressão papilar. Uma hipótese comportamental não substitui um exame de DNA. E a interpretação de uma atitude não pode prevalecer sobre vestígios materiais devidamente analisados.
A psicologia forense pode contribuir para compreender aspectos do comportamento humano. A criminologia auxilia no estudo dos fenômenos criminais. A perícia criminal busca esclarecer os fatos por meio de métodos científicos.
São campos que podem dialogar, mas que possuem competências, métodos e limites próprios.
O QUE REALMENTE DEVERIA NOS ASSUSTAR?
Talvez o mais assustador em um crime bárbaro não seja apenas a possibilidade de existir alguém capaz de praticar tamanha violência.
Talvez seja perceber como nossa necessidade de compreender o mal pode nos levar a procurar explicações simples para fenômenos profundamente complexos.
A psicopatia não é sinônimo de homicídio. A crueldade não é um diagnóstico. E a aparência de normalidade não é garantia de inocência, assim como a frieza não é prova de culpa.
Como perita, considero indispensável preservar uma premissa: a investigação não deve começar com uma conclusão sobre quem é o criminoso, mas com perguntas sobre o que efetivamente aconteceu.
Porque a cena de um crime pode revelar muito sobre as ações praticadas, mas não autoriza, por si só, definir toda a personalidade de quem as executou.
E deixo uma reflexão:
Se o medo nos faz enxergar monstros onde ainda existem apenas suspeitas, quem garante que não estamos deixando de enxergar a própria verdade?
No universo forense, compreender o comportamento humano é importante. Mas saber distinguir aquilo que suspeitamos daquilo que conseguimos provar é indispensável.
Afinal, a Justiça não pode ser construída sobre o medo. Precisa estar fundamentada na prova.



