Por Carla Perin
@cacaperin
Quem já perdeu um animal de estimação conhece um tipo muito particular de silêncio. É chegar em casa e não ouvir aquelas patinhas correndo pelo corredor. É olhar para o cantinho onde ele costumava dormir e perceber que está vazio. É preparar a rotina do dia e, por um instante, esquecer que ele já não está ali. São pequenas ausências que revelam o tamanho de uma presença. No Dia de Finados, costumamos recordar as pessoas que partiram. Mas existe uma saudade que também merece ser acolhida: a dos animais que fizeram parte da nossa família. Para muitas pessoas, perder um cachorro ou um gato não significa apenas perder um companheiro. Significa despedir-se de uma relação construída durante anos de convivência, cuidado, confiança e afeto. E nem sempre essa dor é compreendida. Quantas vezes alguém que perdeu um animal já ouviu frases como: “Era só um cachorro”, “Você pode arrumar outro” ou “Já passou da hora de esquecer”? Mas quem ama sabe que nenhum vínculo pode ser simplesmente substituído. Na abordagem sistêmica, o pertencimento é um dos temas centrais das relações familiares. Quando um animal passa a fazer parte da vida de uma família, ele participa de sua rotina, de suas mudanças e de momentos importantes de sua história. Ele esteve presente quando alguém nasceu, quando os filhos cresceram, durante mudanças de casa, separações, alegrias e períodos difíceis. E quando parte, sua ausência também modifica a dinâmica daquela família. Pelo olhar sistêmico, podemos compreender que reconhecer o lugar de quem partiu é diferente de permanecer preso à perda. Não precisamos apagar fotografias, esconder lembranças ou deixar de falar sobre aquele animal para seguir em frente. Também não precisamos permanecer sofrendo para provar que o amamos. O vínculo pode encontrar uma nova maneira de existir: nas lembranças, na gratidão e na história que compartilhamos. Algumas famílias sentem culpa ao pensar em acolher um novo cachorro ou gato depois de uma perda. Como se amar novamente significasse esquecer aquele que partiu. Mas o amor não precisa funcionar como uma substituição. Cada animal possui sua própria história, seu temperamento, seus hábitos e seu lugar na família. Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de compreender o pertencimento: permitir que cada vínculo seja reconhecido por aquilo que foi, sem comparações e sem exclusões. Se você já perdeu um animal que amava, talvez hoje seja um dia para recordar não apenas sua partida, mas principalmente sua existência. Lembre-se das brincadeiras, dos passeios, das travessuras e até daqueles hábitos que, na época, pareciam tão comuns. Permita-se sentir saudade. E, se fizer sentido para você, experimente dizer silenciosamente:
“Você teve seu lugar na minha vida. Eu reconheço tudo o que vivemos juntos. Guardo nossa história com carinho e me permito continuar vivendo.”
Porque seguir em frente não significa abandonar quem amamos. Significa aprender a carregar essa história de outra maneira.
Neste Dia de Finados, que possamos recordar nossos animais não apenas pela falta que fazem, mas pelo amor que existiu enquanto estiveram conosco.
Afinal, algumas presenças deixam de estar ao nosso lado, mas continuam fazendo parte de quem nos tornamos.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



