Por @biarossattiterapeuta
O que Não Temas o Mal, de Eva Pierrakos e Donovan Thesenga, nos ensina sobre sombra, responsabilidade e limites dentro dos relacionamentos?
Existe uma diferença importante entre compreender o comportamento de alguém e aceitá-lo. Podemos compreender de onde vem a raiva de uma pessoa. Podemos entender que ela foi ferida. Podemos reconhecer seus medos, suas inseguranças, sua história e até as experiências que ajudaram a construir determinados padrões.
Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: em que momento a nossa compreensão começa a se transformar em permissão para o outro nos ferir? Essa é uma questão especialmente importante em qualquer tipo de relacionamento, mas ganha um papel mais importante nos relacionamentos amorosos.
O livro Não Temas o Mal, de Eva Pierrakos e Donovan Thesenga, parte de uma reflexão profunda sobre a existência daquilo que podemos chamar de sombra: aspectos destrutivos que também fazem parte da experiência humana e que, quando permanecem inconscientes, podem comandar comportamentos e relações.
A obra dialoga com a perspectiva de Carl Gustav Jung de que o ser humano precisa reconhecer aquilo que existe em sua própria natureza, inclusive aquilo que não gostaria de admitir. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis do processo de autoconhecimento: olhar para o mal sem negá-lo — mas também sem normalizá-lo.
Compreender não é justificar e essa diferença pode parecer óbvia, mas desaparece facilmente quando existe amor. Uma mulher pode pensar: “Ele age assim porque sofreu muito.” “Ele tem medo de ser abandonado.” “Ele não aprendeu a demonstrar afeto.” “Ele foi traído no relacionamento anterior.” “Ele teve uma infância difícil.”
E tudo isso pode ser verdade. Mas nenhuma dessas explicações transforma um comportamento destrutivo em um comportamento aceitável.
A história de alguém pode explicar sua reação. Ela não precisa autorizar essa reação. Uma pessoa ferida pode ferir. Mas estar ferida não lhe dá o direito de ferir alguém.
O perigo de romantizar a sombra do outro
Existe uma forma de espiritualidade e de autoconhecimento que pode se tornar perigosa quando é usada sem discernimento.
Começamos a acreditar que precisamos compreender tudo. Que precisamos acolher tudo. Que precisamos ter compaixão por tudo. E, pouco a pouco, deixamos de perceber que estamos ultrapassando os nossos próprios limites.
Passamos a chamar controle de insegurança. Manipulação de medo. Ciúme de amor. Silêncio punitivo de necessidade de espaço. Desrespeito de dificuldade emocional. E violência de “uma pessoa que também está machucada”. A compreensão, quando perde o limite, pode se transformar em cumplicidade com aquilo que nos destrói.
Você pode compreender a dor de alguém sem oferecer a ela acesso ilimitado à sua vida. E existe uma responsabilidade que também é nossa: Olhar para a sombra não significa apenas perceber o lado destrutivo do outro. Também precisamos olhar para nós.
Por que permaneço em uma situação que me machuca? Por que preciso encontrar uma explicação para tudo que o outro faz? Por que acredito que, se eu compreender suficientemente bem a história dele, conseguirei finalmente fazê-lo mudar? Por que confundo amar com suportar?
Responder essas perguntas podem ser dolorosas. Mas são perguntas de responsabilidade. Responsabilidade não significa culpa. Uma mulher não é responsável pela violência que alguém escolheu praticar contra ela.
Mas pode, em algum momento, precisar assumir a responsabilidade por aquilo que fará a partir do momento em que reconhece que aquela relação está lhe fazendo mal. E isso pode significar estabelecer um limite. Pedir ajuda. Afastar-se. Encerrar um ciclo. Ou simplesmente parar de tentar justificar aquilo que já ultrapassou o que ela considera aceitável.
O amor não exige que você aceite o mal.
Talvez uma das maiores confusões nos relacionamentos seja acreditar que colocar um limite significa deixar de amar. Não significa.
Você pode amar alguém e dizer: “Eu entendo por que você reage assim. Mas não aceito que você me trate dessa maneira.” Pode compreender a história de alguém e ainda assim decidir não continuar vivendo os efeitos dessa história. Pode ter compaixão e ter limites.
Pode perdoar e não permanecer. Pode compreender e se afastar. Pode reconhecer a sombra do outro sem permitir que ela determine o seu destino. Isso também é maturidade emocional.
E o que acontece quando olhamos para a nossa própria sombra?
Aqui está a outra parte da reflexão proposta por Não Temas o Mal.
É muito fácil falar sobre o mal que existe no outro. Mais difícil é reconhecer aquilo que existe em nós. Porque todos podemos, em determinados momentos, agir a partir de lugares menos conscientes.
Podemos manipular. Punir com silêncio. Controlar. Provocar. Reter afeto. Querer vencer uma discussão em vez de resolver um conflito. Usar a fragilidade do outro contra ele. Ou simplesmente desejar que o outro sinta a mesma dor que estamos sentindo.
Reconhecer isso não significa dizer: “Eu sou uma pessoa má.”
Significa conseguir dizer: “Existe em mim uma parte capaz de agir de maneira destrutiva — e eu preciso me responsabilizar por ela.” E esse reconhecimento é muito diferente de justificar o próprio comportamento.
Todo relacionamento revela aquilo que ainda precisa ser conscientizado
A intimidade tem esse poder. Ela coloca diante de nós partes que talvez conseguíssemos esconder no mundo.
O medo de abandono. A necessidade de controle. A dificuldade de confiar. A raiva. O ressentimento. A dependência. A necessidade de ser reconhecida. O desejo de dominar. A dificuldade de aceitar um “não”.
Por isso, um relacionamento pode se tornar um espaço poderoso de autoconhecimento. Mas existe uma condição: precisamos estar dispostos a olhar para aquilo que descobrimos.
Não adianta perceber a sombra e continuar obedecendo a ela. Não adianta compreender a própria agressividade e dizer que “é porque eu fui machucada”. Não adianta reconhecer a insegurança e continuar controlando o parceiro.
Autoconhecimento não é uma licença para continuar repetindo o que nos destrói. Antes de tudo é um convite à transformação e, nem todo mal precisa ser acolhido
Talvez essa seja uma das ideias mais importantes para levarmos para os relacionamentos: acolher a humanidade de alguém não significa acolher qualquer comportamento dessa pessoa.
Existem comportamentos que precisam de conversa. Outros precisam de limite. Alguns exigem distância. E há situações em que buscar ajuda profissional ou proteção é indispensável. O limite não é falta de amor. Às vezes, o limite é justamente a primeira atitude de respeito por si mesma.
A pergunta que pode mudar tudo
Talvez, diante de uma relação que está causando sofrimento, a pergunta não precise ser apenas: “Por que ele(a) faz isso?”
Podemos perguntar também: “O que eu estou fazendo com aquilo que ele(a) faz?” Estou tentando compreender para poder decidir com consciência? Ou estou compreendendo para conseguir suportar mais um pouco?
Estou olhando para a realidade? Ou estou procurando uma explicação que torne o intolerável mais fácil de tolerar?
Estou exercendo compaixão? Ou estou abandonando a mim mesma(o) em nome dela? Porque compreender o outro pode ser uma expressão de maturidade. Mas compreender o outro às custas de deixar de se proteger pode se transformar em abandono de si.
E talvez seja justamente aí que a reflexão sobre a sombra se torna tão necessária. Precisamos ter coragem para reconhecer que o ser humano é capaz de produzir sofrimento. Precisamos ter coragem para olhar para essa possibilidade dentro de nós.
Mas também precisamos ter coragem para dizer: “Eu compreendo a sua história. Mas ela não me obriga a aceitar aquilo que me fere.” Porque conhecer a sombra não significa fazer as pazes com o mal. Significa enxergá-lo com consciência suficiente para não sermos governados por ele.
Sobre a autora
Maria Beatriz Rossatti é terapeuta sistêmica e autora do livro Depois do Divórcio – A Rota da Cura, uma obra dedicada ao processo de reconstrução emocional e ao caminho de volta para si mesma.
Ao longo de sua trajetória, Beatriz acompanha pessoas que desejam compreender os padrões que se repetem em suas relações, recuperar a própria autonomia emocional e construir vínculos mais conscientes.
Seu trabalho parte de uma premissa simples, mas profunda: a cura não acontece quando encontramos alguém para culpar pela nossa história, mas quando desenvolvemos consciência sobre aquilo que podemos transformar.
É nesse caminho que temas como sombra, responsabilidade, limites e relacionamentos ganham um novo significado. Porque olhar para dentro não é assumir a culpa pelo que o outro fez. É recuperar o poder de escolher o que faremos com aquilo que vivemos.



