Por Ana Paula Maia Angélico
Advogada
Durante muito tempo, produzir no campo significava olhar para o céu, conhecer a terra e confiar na experiência acumulada ao longo das gerações. Tudo isso continua tendo valor. A diferença é que, hoje, o produtor pode acrescentar a esse conhecimento uma quantidade de informações que antes simplesmente não existia.
Drones sobrevoam plantações. Sensores acompanham as condições do solo e do clima. Máquinas utilizam GPS. Imagens de satélite ajudam a observar grandes áreas. Sistemas analisam dados e a inteligência artificial começa a auxiliar na identificação de doenças e na previsão de situações que exigem intervenção. Parece coisa de filme? Já é realidade no agronegócio.
Segundo a Embrapa, a agricultura digital envolve tecnologias como sensores, GPS, drones, robótica, Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial, computação em nuvem e análise de dados. Na agricultura de precisão, essas informações são utilizadas para compreender as diferenças existentes dentro de uma mesma propriedade e apoiar decisões mais eficientes.
Na prática, imagine uma grande plantação em que apenas determinada área apresenta deficiência de nutrientes ou sinais iniciais de uma doença. Em vez de tratar toda a lavoura da mesma maneira, a tecnologia pode ajudar o produtor a identificar onde está o problema e onde a intervenção realmente é necessária.
Isso pode representar economia de insumos, melhor aproveitamento da água, redução de perdas e aumento da produtividade. Para o Ministério da Agricultura e Pecuária, as ferramentas da agricultura digital contribuem justamente para melhorar a eficiência no uso de recursos naturais e insumos, aumentar a produtividade e a rentabilidade e favorecer uma produção mais sustentável. E a transformação não se limita às grandes plantações.
Na pecuária, tecnologias de monitoramento podem acompanhar animais; sistemas automatizados podem auxiliar na alimentação e no manejo; e ferramentas digitais permitem reunir informações que ajudam o produtor a tomar decisões sobre o rebanho. A Embrapa aponta, inclusive, perspectivas de monitoramento remoto por visão computacional e outras tecnologias.
Mas existe um desafio do lado de fora da tela. Toda essa inovação esbarra em uma questão bastante concreta: como falar em campo conectado onde ainda falta conexão? O próprio Ministério da Agricultura considera a conectividade rural uma infraestrutura essencial para a agricultura digital. Sem internet adequada, parte das soluções tecnológicas simplesmente não consegue alcançar produtores de diferentes regiões do país.
Além da conectividade, existem outros obstáculos. A Embrapa aponta custos de equipamentos e softwares, necessidade de qualificação profissional e integração entre diferentes sistemas entre os desafios para ampliar a automação e a agricultura de precisão no Brasil.
E talvez esteja aí uma das discussões mais importantes sobre o futuro do agronegócio. A tecnologia que aumenta a produtividade também precisa ser acessível. Se a transformação digital ficar restrita aos produtores que possuem maior capacidade financeira e melhor infraestrutura, poderemos ter um campo cada vez mais tecnológico, mas também aumentar a distância entre quem consegue acompanhar essa evolução e quem permanece fora dela. A própria Embrapa alerta para o risco de ampliação desse hiato tecnológico.
A tecnologia não elimina o conhecimento de quem vive da terra. Ao contrário: quando bem utilizada, pode transformar experiência em decisões ainda mais precisas. Talvez o produtor do futuro continue fazendo aquilo que seus antepassados sempre fizeram: observar o campo. A diferença é que, além de olhar para a terra e para o céu, ele terá sensores, satélites, drones e inteligência artificial ajudando a enxergar aquilo que os olhos, sozinhos, não conseguem ver.
O futuro do agronegócio pode ser cada vez mais digital. O grande desafio será fazer com que essa tecnologia também chegue a quem produz.
Ana Paula Maia Angélico
@anapmangelico
Dra. Ana Paula Maia Angélico é advogada especialista em Direito de Família e Trabalhista, atua na área de Registro de Marcas, auxiliando empresas e profissionais na proteção jurídica de seus ativos intelectuais e fortalecimento de suas marcas e colabora em grupos de estudos de Direito do Agronegócio e Direito Ambiental.
Fontes consultadas:
Embrapa – Automação e Agricultura de Precisão,
Ministério da Agricultura e Pecuária – Agricultura Digital e
Projeto Semear Digital – Embrapa.



