Por Dra Thayse Santos
@veridiana.mediciapericial
@dra.thaysesantos
Um acidente acontece em segundos. Uma queda, um corte, uma fratura, uma lesão na coluna, uma queimadura, uma máquina que provoca uma lesão inesperada. Mas, depois do acidente, começa uma história que pode durar meses ou até anos. E é justamente nessa história que a Medicina Pericial tem um papel importante.
Quando um trabalhador sofre um acidente relacionado ao trabalho, uma das primeiras perguntas costuma ser: “Ele ficou com alguma sequela?” É necessário compreender o que aconteceu, quais estruturas foram lesionadas, como foi o tratamento, qual foi a evolução clínica e, principalmente, quais consequências permaneceram e se há a possibilidade de retornar ao trabalho, mesmo com redução de força, mobilidade, resistência ou capacidade para determinadas tarefas.
É por isso que a perícia médica não termina quando a lesão é identificada. Ela precisa olhar para o depois. Como aquele trabalhador está hoje? O que ele consegue fazer? O que deixou de conseguir fazer? Existe alguma limitação funcional? Essa limitação interfere diretamente nas atividades que exercia antes do acidente? É possível realizar as mesmas tarefas com segurança? Essas questões são fundamentais para compreender a verdadeira repercussão de um acidente. Imagine, por exemplo, um trabalhador que sofreu uma lesão no ombro.
Após o tratamento, ele pode apresentar uma boa recuperação para atividades cotidianas. Mas, se sua profissão exige levantar cargas pesadas repetidamente, aquela mesma limitação pode ter uma importância muito maior no ambiente de trabalho. É por isso que a avaliação pericial precisa considerar também a profissão exercida. Pois, a existência de uma sequela não significa automaticamente incapacidade total para o trabalho. Da mesma forma, conseguir realizar algumas atividades do cotidiano não significa necessariamente que a pessoa esteja plenamente apta para desempenhar sua função profissional. Entre uma coisa e outra existe um elemento fundamental: a capacidade funcional.
A Medicina Pericial busca compreender essa relação entre a lesão, a sequela, as limitações e as exigências concretas do trabalho. E há ainda uma questão importante: nem toda consequência de um acidente é visível. Algumas limitações podem estar relacionadas à dor persistente, redução de movimentos, perda de força, alterações neurológicas ou repercussões emocionais. Por isso, uma avaliação responsável não deve se limitar à aparência ou a um único exame.
É necessário reconstruir a história e analisar o conjunto das informações disponíveis. No final, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente: “O trabalhador sofreu um acidente?” Mas sim: “O que esse acidente deixou como consequência e como isso interfere, hoje, na vida e no trabalho dessa pessoa?” É nesse ponto que a Medicina encontra a realidade. Porque o acidente acontece em um instante. Mas suas consequências podem acompanhar uma pessoa por muito tempo. E compreender essas consequências exige ciência, técnica, escuta e responsabilidade.
Dra. Thayse Santos, é médica especialista e atuante nas áreas de Perícia Médica Judicial, saúde mental, beleza e qualidade de vida. Atua como perita médica junto ao Poder Judiciário, realizando avaliações técnicas em processos judiciais com enfoque ético, humanizado e baseado em evidências científicas.
Esta coluna busca aproximar o público do universo da perícia médica por meio de uma linguagem clara, acessível e acolhedora, traduzindo temas técnicos para o cotidiano das pessoas.



