Quando uma criança perde alguém que ama, a maneira como os adultos acolhem sua dor pode fazer toda a diferença na forma como ela aprende a lidar com a ausência.
Por Érika Ricci | Psicóloga Clínica – CRP 06/120081
O Dia de Finados costuma despertar lembranças, saudades e reflexões sobre aqueles que já não estão entre nós. Para os adultos, a morte pode ser um assunto difícil de compreender e aceitar. Para uma criança, que ainda está construindo sua compreensão sobre a vida, o tempo e a ausência, essa experiência pode ser ainda mais confusa.
A morte de um avô, de uma avó, de um familiar próximo ou até mesmo de um coleguinha pode representar uma das primeiras experiências de perda significativa na infância. E, nesse momento, é natural que os pais se perguntem: como contar? O que dizer? Devo deixar meu filho chorar? É melhor evitar o assunto para que ele não sofra?
Na tentativa de proteger os filhos, muitos adultos procuram esconder a tristeza, evitar conversas sobre a morte ou oferecer explicações que parecem menos dolorosas.
Entretanto, o silêncio nem sempre protege. Muitas vezes, ele deixa a criança tentando compreender sozinha algo que ainda não possui recursos emocionais e cognitivos suficientes para elaborar. A criança não precisa ser protegida da existência da tristeza. Ela precisa aprender que não estará sozinha quando a tristeza chegar.
A criança entende a morte da mesma maneira que o adulto?
Não. A compreensão da morte se desenvolve gradualmente e está relacionada à idade, à maturidade emocional, às experiências anteriores e ao contexto familiar.
Crianças pequenas podem interpretar a morte como uma ausência temporária. Por isso, não é incomum perguntarem quando a vovó voltará, se poderão visitá-la ou por que ela não telefona mais.
Outras podem acreditar que fizeram alguma coisa para provocar aquela perda. Uma criança que brigou com o avô antes de sua morte, por exemplo, pode imaginar que suas palavras ou seu comportamento tiveram alguma responsabilidade pelo acontecimento. É nesse momento que a orientação dos adultos se torna fundamental.
A criança precisa compreender, com explicações adequadas à sua idade, que a morte não aconteceu por sua culpa, que seus sentimentos são legítimos e que continuará sendo amada e cuidada.
O cuidado com aquilo que dizemos:
Expressões como “a vovó foi dormir”, “o vovô fez uma viagem” ou “Deus levou porque precisava dele” podem parecer formas delicadas de explicar a morte, mas também podem despertar interpretações equivocadas.
Uma criança pode passar a ter medo de dormir, imaginar que as pessoas que viajam não voltarão ou desenvolver receio de perder outros familiares.
O ideal é utilizar uma linguagem simples, verdadeira e acolhedora.
Podemos explicar, por exemplo: “O vovô morreu. Isso significa que o corpo dele parou de funcionar e que ele não poderá voltar. Nós vamos sentir muita saudade dele, mas podemos continuar lembrando das coisas bonitas que vivemos juntos”.
As crenças religiosas e espirituais da família também podem fazer parte dessa conversa, desde que respeitem a compreensão da criança e não substituam a explicação concreta sobre a morte.
Não é necessário oferecer respostas para todas as perguntas. Algumas questões podem permanecer sem explicação, e reconhecer isso também ensina à criança que nem tudo na vida está sob nosso controle.
Quando o luto aparece no comportamento:
Nem sempre a tristeza infantil se manifesta por meio do choro.
Algumas crianças ficam mais quietas, outras apresentam irritabilidade, dificuldades para dormir, medo de se separar dos pais ou comportamentos que já haviam superado.
Também é possível observar alterações no rendimento escolar, na concentração e no interesse por atividades habituais.
Uma criança pode chorar pela perda do avô e, poucos minutos depois, voltar a brincar normalmente. Isso não significa que tenha esquecido o que aconteceu ou que não esteja sofrendo. O luto infantil pode acontecer em pequenos momentos, alternando tristeza, brincadeiras, perguntas e períodos de aparente tranquilidade.
Diferentemente do adulto, que muitas vezes consegue permanecer por mais tempo refletindo sobre a perda, a criança pode precisar dessas alternâncias para processar uma experiência emocionalmente intensa.
Por isso, é importante evitar interpretações precipitadas sobre a maneira como ela demonstra seus sentimentos. Cada criança possui seu próprio ritmo.
Uma das atitudes mais importantes que os adultos podem oferecer é permitir que a criança fale sobre quem morreu.
Muitas famílias evitam mencionar o nome da pessoa falecida porque acreditam que isso provocará sofrimento. Entretanto, conversar sobre lembranças, compartilhar histórias e olhar fotografias pode ajudar a criança a compreender que a ausência física não apaga o significado daquela relação.
Uma avó que preparava determinado bolo, um avô que buscava o neto na escola ou um coleguinha que dividia as brincadeiras continuam fazendo parte da história afetiva daquela criança. E essas memórias podem ser preservadas.
Criar uma caixa de recordações, desenhar momentos especiais, escrever uma carta ou simplesmente conversar sobre aquilo de que sentem saudade são maneiras de ajudar a criança a expressar o que está vivendo.
Também é importante compreender que os adultos não precisam esconder completamente suas próprias emoções.
Uma mãe pode dizer: “Hoje estou triste porque sinto saudade da vovó. Às vezes, lembrar dela me faz chorar, mas conversar e estar perto de quem eu amo me ajuda”.
Essa atitude ensina algo fundamental: sentir tristeza faz parte da vida, e existem maneiras saudáveis de lidar com ela. O cuidado está em não transformar a criança na responsável por consolar os adultos ou sustentar emocionalmente a família.
Ela precisa continuar ocupando seu lugar de criança.
Quando procurar ajuda psicológica?
O luto não é uma doença e não deve ser tratado como algo que precisa desaparecer rapidamente.
Sentir saudade, chorar, fazer perguntas e apresentar mudanças temporárias de comportamento pode fazer parte de uma reação esperada à perda.
Entretanto, quando o sofrimento se torna muito intenso, persiste com prejuízos importantes ou interfere significativamente no sono, na alimentação, na escola e nas relações familiares, é importante buscar orientação profissional.
Medos intensos e persistentes, isolamento acentuado, culpa excessiva ou falas relacionadas ao desejo de morrer também exigem atenção, especialmente quando há risco à segurança da criança.
O acompanhamento psicológico pode oferecer um espaço protegido para que ela expresse sentimentos que ainda não consegue organizar em palavras, utilizando recursos como brincadeiras, desenhos e histórias.
A orientação parental também contribui para que os familiares compreendam as manifestações do luto e desenvolvam formas mais adequadas de acolhimento.
O amor não termina quando alguém parte:
Talvez uma das maiores dificuldades dos adultos seja aceitar que não conseguem poupar os filhos de todas as experiências dolorosas. Por mais que desejemos protegê-los, perdas, despedidas e frustrações também fazem parte da existência.
Nossa responsabilidade não é ensinar que a vida nunca irá doer, mas ajudá-los a desenvolver recursos emocionais para enfrentar os momentos difíceis sem perder a confiança nas relações e em si mesmos.
Quando uma criança encontra adultos que escutam suas perguntas, respeitam seu silêncio, acolhem suas lágrimas e preservam suas lembranças, ela aprende que a saudade pode ser compartilhada e que continuar vivendo, sorrindo e construindo novas memórias não significa deixar de amar quem morreu.
Neste Dia de Finados, mais importante do que ensinar uma criança a não sofrer é mostrar que ela não precisa sofrer sozinha.
Porque a morte encerra uma presença física, mas o amor, as lembranças e tudo aquilo que foi construído em uma relação podem continuar fazendo parte da nossa história.
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
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