Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
Quando penso no Dia das Mães e em autonomia emocional, não consigo separar uma coisa da outra. Para muitas pessoas, essa data é doce. Para outras, é um nó na garganta. Talvez você esteja em um dos extremos… ou em algum lugar no meio.
Hoje quero falar com você como se estivéssemos numa conversa calma, olho no olho. Sem romantização excessiva, sem demonizar ninguém. Só tentando entender o que essa relação com a mãe faz com o nosso jeito de amar – e de nos amar.
Desde cedo, aprendemos que mãe é sinônimo de amor. Mas, na prática, a história é bem mais complexa. Tem mãe que cuida, mas controla. Mãe que ama, mas culpa. Mãe que foi presente no corpo, mas distante na emoção. Mãe que fez o melhor que podia, mas ainda assim deixou marcas.
E, no meio disso tudo, você foi tentando descobrir quem é. Onde termina o amor por ela e começa o amor por você.
Autonomia afetiva passa muito por aí.
Talvez você tenha crescido ouvindo frases do tipo: “Eu faço tudo por você.”
“Você vai me abandonar quando crescer.”
“Depois de tudo que eu fiz, é assim que você me retribui?”
Essas frases vão construindo uma ideia silenciosa: para ser amado, você precisa retribuir, agradar, compensar. E, muitas vezes, precisa se moldar à expectativa do outro, no caso, da sua mãe.
Agora pense: quantas vezes, em outros relacionamentos, você se percebe tentando não decepcionar, “não dar trabalho”, não desagradar? Quantas vezes sente culpa só por querer algo diferente?
Isso não é coincidência.
No Dia das Mães, isso costuma ficar ainda mais evidente. A data funciona quase como um holofote emocional.
Talvez você se force a um almoço em família, sorrindo por fora e tenso por dentro.
Talvez sinta culpa por não querer estar perto.
Talvez sofra por uma mãe que já se foi.
Ou talvez se sinta estranho por não sentir tudo aquilo que “todo mundo diz que sente”.
Eu quero te dizer algo simples e, ao mesmo tempo, libertador:
o que você sente pela sua mãe – seja amor, gratidão, ambivalência, raiva, saudade, cansaço – é humano. Não é um teste de caráter. É parte da sua história.
Autonomia emocional não significa se afastar da sua mãe, cortar vínculos ou virar alguém frio. Também não significa engolir tudo em nome da “gratidão eterna”. Autonomia é poder reconhecer:
“Eu amo, mas também me machuco.”
“Eu reconheço o que ela fez, mas posso querer algo diferente para mim.”
“Eu posso cuidar dela sem me abandonar.”
Talvez, neste Dia das Mães, você precise se dar um presente, mas também um limite.
Talvez seja o primeiro ano em que você não liga, e isso doa e alivie ao mesmo tempo.
Talvez seja o ano em que, pela primeira vez, você olha para a sua mãe não como uma figura perfeita ou terrível, mas como uma mulher com a própria história, limites, traumas e faltas.
Reconhecer a humanidade dela não significa desculpar tudo. Significa, aos poucos, deixar de viver como um prolongamento da vida dela. Você não está aqui para consertar a infância da sua mãe, nem para pagar uma dívida eterna.
Você está aqui para viver a sua vida.
Autonomia afetiva, nesse contexto, é poder dizer “sim” e “não” com o mesmo respeito interno. É conseguir estar presente, se assim você escolher. É também poder se afastar um pouco, se isso for necessário, sem se declarar “filho ingrato” dentro da própria cabeça.
Se a sua mãe foi amorosa e cuidadora, talvez a autonomia passe por não colocar nela a responsabilidade de tudo: da sua felicidade, das suas escolhas, dos seus fracassos e sucessos.
Se a sua mãe foi ausente, crítica ou invasiva, talvez a autonomia passe por não viver o resto da vida só reagindo ao que ela foi ou deixou de ser.
No fim das contas, o dia de hoje pode ser menos sobre “como deveria ser” e mais sobre “como eu quero viver essa relação daqui para frente”.
Você pode honrar a sua mãe sem se perder nela.
Você pode agradecer o que recebeu e, ao mesmo tempo, se oferecer aquilo que faltou.
Se tiver que escolher um gesto neste Dia das Mães, que seja este: cuidar um pouco de você também. Porque, sem esse movimento, todo amor – até o amor de filho – corre o risco de virar apenas obrigação, medo e culpa.
E você merece mais do que isso.
Whatsapp: (41) 99182-9353
e-mail: [email protected]
Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



