Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_Jackson_Shella
Nas últimas semanas, venho falando sobre autonomia emocional. Hoje quero tornar tudo isso mais concreto com dois “causos” ficcionais que, talvez, toquem em algo muito familiar para você. Não é para você se culpar, nem se diagnosticar. É um convite para se olhar com mais honestidade e menos dureza.
Caso 1: termina, volta… e o medo manda
Lucas, 28 anos, está em um relacionamento de seis anos, cheio de brigas intensas e reconciliações apaixonadas. Já terminou “de verdade” mais de cinco vezes. Em cada término, diz: “Agora eu aprendi”, “vou me colocar em primeiro lugar”.
No dia do rompimento, sente força e alívio. Faz planos, pensa em cuidar de si. Mas, poucos dias depois, o roteiro começa:
As lembranças boas entram em replay.
A mente romantiza: “Não era tão ruim assim”, “acho que exagerei”.
O medo de ficar só se mistura com saudade e culpa.
A cama parece grande demais, as noites ficam silenciosas, a ideia de conhecer alguém novo parece cansativa e ameaçadora. Diante desse vazio, ele abre a conversa e manda uma única mensagem:
“Oi, sumida!”
Por trás dela, um pedido: “Me responde, para eu não precisar encarar esse vazio”. E, pouco a pouco, como se nada tivesse acontecido, volta para o mesmo lugar.
A cada ciclo, sente-se mais fraco, envergonhado e confuso. E, ao mesmo tempo, mais preso. A dependência emocional aparece nesse momento quase imperceptível em que o medo de ficar só fala mais alto que o desejo de se respeitar.
Caso 2: muda o parceiro, repete a submissão
Ana, 35 anos, já teve três relacionamentos longos. De fora, parece alguém que “sabe terminar” e “não tem medo de recomeçar”. Mas, olhando de perto, o padrão é sempre o mesmo.
No começo, ela é segura, independente, cheia de interesses. Com o tempo, começa a ceder:
Muda horários para se encaixar no outro.
Abandona hobbies porque ele reclama.
Afasta-se de amigos que “não vão com a cara dele”.
Quando o parceiro se irrita, ela corre para “consertar”. Se ele ameaça ir embora, ela pede desculpas, mesmo sem saber muito bem do quê. No fim de cada relação, promete: “Nunca mais vou aceitar isso”. Mas, no próximo relacionamento, depois de alguns meses, volta a viver algo muito parecido.
Isso não quer dizer que Ana “gosta de sofrer” ou “não aprende”. Significa que existe um roteiro interno silencioso dizendo:
“Se eu não me adaptar totalmente ao outro, ele vai embora.”
“Se eu colocar limites, vou ficar sozinha.”
Esse roteiro coloca o outro no centro e a própria vida como algo a ser constantemente diminuído para caber no medo de perder.
E você, o que reconhece em si?
Agora eu te convido a tirar os olhos de Lucas e Ana e olhar um pouco para a sua história. Não como teste de internet, não como rótulo, mas como reflexão.
Algumas perguntas que podem incomodar, mas também abrir caminhos:
O que você tem sacrificado para não perder essa pessoa?
Sono, saúde, amizades, família, trabalho, planos seus?
Como você se sente ao imaginar, de verdade, a possibilidade de ficar só?
Vem tristeza? Um vazio sem fundo? Pânico, como se a vida perdesse o sentido?
Quando algo te machuca na relação, você se cala ou fala?
Se se cala, é por medo de perder? De “fazer drama”? De ser visto como “difícil”?
Essas perguntas não servem para te condenar, mas para te aproximar de algo essencial: perceber como você participa da própria história. Autonomia emocional não é virar ilha, nem “não precisar de ninguém”. É poder escolher permanecer, e não apenas se agarrar ao outro por medo do vazio.
Talvez você se reconheça um pouco em Lucas.
Talvez um pouco em Ana.
Talvez em ambos, em momentos diferentes.
Em vez de se perguntar “O que há de errado comigo?”, talvez valha experimentar outra pergunta:
“Que relação comigo mesmo(a) eu quero construir, para que meus próximos vínculos não sejam apenas a repetição da mesma dor com nomes diferentes?”
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Whatsapp: (41) 99182-9353
e-mail: [email protected]
Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



