Por Alexandre Angélico
Matemático e Economista
Em 2026, o El Niño promete chegar forte, e esperamos que ele não mudará só o clima: ele também mexerá no bolso das famílias. E, num ano eleitoral, bolsos sensíveis levam a debates mais quentes! No Nordeste, onde a estiagem é dura, o impacto aparece primeiro na agricultura. A falta de chuva derruba a produção de grãos, afeta a pecuária e encarece os alimentos básicos. É aquele efeito dominó: menos oferta de produtos, mais custos, preços subindo. Para muita gente, isso significa ter que escolher com mais cuidado o que será comprado, trazendo peso na percepção sobre a gestão pública.
Ao mesmo tempo, o calor extremo obriga governos estaduais e prefeituras a realocar dinheiro para medidas emergenciais. Entra carro-pipa, apoio a pequenos produtores, reforço no sistema de saúde para lidar com desidratação e doenças agravadas pelo calor. Só que cada real gasto na emergência é um real que deixa de ir para obras estruturais. Isso não paralisa o Estado, mas muda as suas prioridades, fazendo o eleitor perceber.
Até a logística eleitoral sente o impacto. Os Tribunais Regionais Eleitorais precisam adaptar escolas, garantir água, climatização e equipes de saúde para mesários e eleitores. Isso aumenta o custo operacional, mas é absorvido pelo orçamento federal. E aqui vale reforçar: Não existe possibilidade legal, técnica ou institucional de suspensão das eleições de 2026 no Nordeste devido ao fenômeno El Niño. O calendário eleitoral brasileiro é protegido pela Constituição Federal e gerido rigidamente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Embora as ondas de calor e a estiagem severa causem impactos severos na região, a legislação nacional não prevê o adiamento do pleito por fatores climáticos, tratando a votação como um direito e dever ininterrupto dos cidadãos.
Na prática, as eleições só podem ser adiadas em situações muito específicas: por meio de uma Emenda à Constituição aprovada pelo Congresso, ou por decisão do TSE em casos excepcionais — como nulidade de mais de 50% dos votos, cassação de chapas, estado de sítio, calamidade sanitária ou catástrofes ambientais que destruam a infraestrutura local. Foi o que aconteceu no Rio Grande do Sul em 2024, quando enchentes históricas inviabilizaram a votação em alguns municípios. No Nordeste, porém, as secas e estiagens previstas para outubro avançam de forma lenta. Elas não derrubam prédios, não bloqueiam estradas e não inviabilizam escolas de uma hora para outra. Além disso, a Justiça Eleitoral trabalha com planos e verbas de contingência justamente para esses cenários. Em resumo: o processo eleitoral segue, faça sol ou faça seca.
O que o El Niño faz, na prática, é mudar o tom da conversa política. As urnas vão funcionar normalmente, mas os candidatos terão que falar de segurança hídrica, de adaptação climática e de como proteger a economia regional num cenário de calor extremo. A crise climática pressiona, mas a estabilidade institucional permanece firme. No fim das contas, o clima não interrompe a democracia. Ele só deixa claro quais problemas precisam de solução urgente!
Alexandre Angélico
@alexandreangelico
Alexandre Angélico é Matemático e Economista formado pela USP e Mestre em Economia dos Mercados pelo Mackenzie.



