Por Erika Ricci
Quando uma vida aparentemente boa não impede uma criança ou adolescente de enfrentar um sofrimento emocional
“Mas ele tem tudo. Eu não consigo entender por que está assim.”
Essa é uma frase que muitos pais dizem quando percebem um filho triste, ansioso, desanimado, irritado ou diferente do habitual.
E é possível compreender essa dúvida.
Os pais olham para tudo o que procuram oferecer: amor, cuidado, uma boa escola, alimentação, roupas, passeios, amigos, oportunidades, presentes, experiências que talvez eles mesmos não tenham tido na infância… e se perguntam:
“Eu faço de tudo por ele. O que está faltando?”
Mas talvez essa não seja a melhor pergunta.
Porque nem sempre o sofrimento aparece porque alguma coisa está faltando.
Nós temos uma tendência a imaginar a felicidade como resultado direto da vida que uma pessoa tem. Se ela tem amor, conforto, oportunidades e poucas dificuldades, esperamos que esteja feliz. Se viveu perdas, dificuldades ou privações, imaginamos que terá mais motivos para ser infeliz.
Mas basta olhar para a própria vida para perceber que essa conta não é tão simples.
Existem pessoas que tiveram infâncias muito difíceis, enfrentaram perdas, passaram por dificuldades financeiras ou viveram situações dolorosas e, ainda assim, conseguem experimentar alegria, construir vínculos, realizar projetos e encontrar sentido na vida.
Da mesma forma, existem pessoas que receberam amor, tiveram oportunidades, conforto, amigos e uma boa estrutura familiar e que, em algum momento, enfrentam ansiedade, depressão, insegurança ou um sofrimento que nem elas conseguem explicar.
Se uma vida difícil não determina que alguém será infeliz, uma vida confortável também não consegue garantir que alguém será feliz.
Nossas emoções não funcionam como uma conta matemática.
E isso é importante quando olhamos para nossos filhos.
Uma criança pode ser muito amada e sentir ansiedade. Um adolescente pode ter amigos e se sentir sozinho. Pode estudar em uma boa escola e sentir que nunca é bom o suficiente. Pode ter uma família presente e enfrentar inseguranças que não consegue explicar. Pode viajar, passear, ganhar presentes, sorrir nas fotografias e, ainda assim, chegar ao quarto e não se sentir bem.
Ter uma vida boa não significa sentir-se bem o tempo todo.
E isso também não significa ingratidão.
É possível reconhecer tudo de bom que existe na própria vida e, ao mesmo tempo, estar sofrendo. Gratidão e sofrimento podem coexistir.
O problema é que, quando não compreendemos isso, podemos tentar ajudar nossos filhos mostrando a eles quantos motivos possuem para estar felizes:
“Você tem uma família que te ama.”
“Você tem tudo o que precisa.”
“Olha quanta gente gostaria de ter a sua vida.”
“Você não tem motivo para ficar assim.”
Essas frases geralmente não são ditas por mal. Pelo contrário. Muitas vezes são uma tentativa dos pais de fazer o filho enxergar as coisas boas e sair daquele estado.
Mas pense em alguém sentindo uma dor física muito forte. Se dissermos a essa pessoa que ela “não tem motivo para sentir dor”, a dor desaparece?
Não.
Com o sofrimento emocional acontece algo parecido.
Dizer a alguém que ele não deveria estar triste não faz a tristeza desaparecer.
Mas pode fazer com que ele deixe de falar sobre ela.
E então surge um problema ainda maior.
A criança ou o adolescente pode começar a pensar:
“Minha vida é boa. Meus pais fazem tudo por mim. Eu deveria estar feliz. Então por que eu não consigo?”
E, além do sofrimento que já existia, pode aparecer a culpa por estar sofrendo.
Por isso, talvez, diante de um filho que mudou, a pergunta não precise ser:
“O que está faltando para você?”
Podemos começar por algo muito mais simples:
“Eu percebi que você não está bem. Quer conversar comigo?”
E talvez ele responda que não sabe o que está acontecendo.
Tudo bem.
Crianças e adolescentes ainda estão aprendendo a reconhecer, organizar e comunicar aquilo que sentem. Às vezes, nem eles conseguem explicar por que estão mais irritados, cansados, isolados, preocupados ou sem vontade de fazer coisas das quais antes gostavam.
Nesse momento, muitos pais podem pensar:
“Então o que eu preciso fazer para garantir que meu filho tenha uma boa saúde emocional?”
Talvez seja importante aliviar também esse peso.
Não existe uma fórmula capaz de garantir que um filho nunca enfrentará sofrimento emocional.
Ser pai ou mãe já traz responsabilidades suficientes. Transformar a saúde emocional dos filhos em mais uma missão na qual precisamos acertar tudo pode gerar apenas culpa e a sensação de que nunca estamos fazendo o bastante.
Nossos filhos vão se frustrar, perder, errar, ser contrariados, enfrentar rejeições, mudanças e momentos difíceis. E alguns poderão precisar de ajuda psicológica ou psiquiátrica mesmo tendo recebido amor, cuidado e uma família presente.
Isso não significa automaticamente que os pais falharam.
Por isso, em vez de perguntar: “Como faço para meu filho nunca sofrer?”
Talvez exista uma pergunta muito mais possível: “O que meu filho encontra em mim quando não está bem?”
Não precisamos ter sempre a resposta certa. Não precisamos saber resolver tudo. Pais também se cansam, erram, perdem a paciência, interpretam situações de maneira equivocada e, muitas vezes, simplesmente não sabem o que fazer.
O importante não é ser perfeito.
É conseguir perceber. Escutar. Voltar para uma conversa que não deu certo. Reconhecer um erro. Tentar novamente. E também reconhecer quando aquela situação ultrapassa aquilo que a família consegue manejar sozinha e precisa de ajuda profissional.
Saúde emocional não significa estar feliz o tempo inteiro.
E cuidar da saúde emocional dos nossos filhos não significa construir uma vida na qual eles nunca sofram.
Talvez uma das coisas mais importantes que podemos oferecer seja a segurança de que eles não precisam esconder de nós aquilo que sentem apenas porque têm uma vida considerada boa.
Neste Setembro Amarelo, essa reflexão também é necessária.
Ninguém precisa provar que tem motivos suficientes para sofrer para merecer ser escutado.
Quando mudanças emocionais ou comportamentais se tornam persistentes, intensas ou começam a prejudicar a rotina, o sono, a alimentação, os estudos, os relacionamentos ou o interesse pelas atividades habituais, é importante olhar com mais atenção e, quando necessário, buscar ajuda.
No final, talvez “dar tudo” nunca tenha sido a questão.
Podemos oferecer amor, oportunidades, conforto, educação e experiências — e tudo isso tem valor. Mas não temos como controlar tudo aquilo que nossos filhos sentirão ao longo da vida.
Assim como uma vida difícil não condena alguém à infelicidade, uma vida confortável não garante felicidade.
E talvez nossos filhos não precisem de pais capazes de protegê-los de toda dor.
Precisem saber que, quando a dor chegar, não terão que enfrentá-la sozinhos.
Érika Suelen de Paula Ricci
Psicóloga Clínica – CRP 06/120081
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
Atendimento psicológico para crianças e adolescentes | Orientação familiar
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