Por Alexandre Angélico
Matemático e Economista
Como o Brasil pode ser a 8ª maior economia do mundo e estar tão endividado ao mesmo tempo? A resposta curta é: uma coisa mede tamanho, a outra mede saúde financeira.
O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos por um país em determinado período. Quando o FMI projeta o Brasil como a oitava maior economia do mundo, está olhando principalmente para o tamanho da atividade econômica brasileira em dólares, estimada em cerca de US$ 2,8 trilhões para 2027. O país deve ultrapassar Itália e Rússia nesse ranking.
Mas ser uma economia grande não significa necessariamente ser uma economia saudável. Imagine uma família que possui uma mansão, vários carros e uma renda elevada. Ela pode parecer rica para os vizinhos. Porém, se estiver devendo mais do que consegue administrar, sua situação financeira pode ser preocupante. Com os países acontece algo semelhante.
A dívida pública mostra quanto o governo deve em relação ao tamanho da economia. Quando a dívida se aproxima ou ultrapassa 90% do PIB, muitos economistas começam a se preocupar porque uma parcela crescente do orçamento precisa ser destinada ao pagamento de juros, reduzindo o espaço para investimentos em infraestrutura, saúde e educação.
Existe ainda um detalhe importante: o ranking das maiores economias é feito com base no PIB nominal em dólares. Isso significa que o Brasil pode subir posições não apenas porque sua economia cresceu, mas também porque outras economias cresceram menos ou porque houve mudanças cambiais. Se boa parte da riqueza produzida é medida em reais, em caso de forte desvalorização da nossa moeda em relação ao dólar, podemos ficar mais “pobres” perante outros países do mundo. Em outras palavras, subir no ranking não significa automaticamente que o brasileiro ficou mais rico.
É exatamente esse ponto que leva muitos analistas a fazer uma distinção entre tamanho e qualidade da economia. O Brasil possui um mercado consumidor gigantesco, um agronegócio poderoso, recursos naturais abundantes e uma indústria diversificada. Tudo isso contribui para um PIB elevado. Porém, desafios como baixa produtividade, crescimento modesto e aumento da dívida pública continuam limitando o potencial de desenvolvimento do país.
Os exemplos internacionais ajudam a entender essa diferença. Os Estados Unidos possuem uma dívida pública superior a 100% do PIB e continuam sendo a maior economia do planeta. O Japão tem uma das maiores relações dívida/PIB do mundo e permanece entre as maiores economias globais. Por outro lado, a Rússia possui um endividamento público relativamente baixo quando comparado aos padrões internacionais, mas deve ser ultrapassada pelo Brasil no ranking do PIB. Esses casos mostram que o tamanho da economia e o nível de endividamento são indicadores diferentes. O primeiro mede quanto um país produz; o segundo ajuda a avaliar a sustentabilidade de suas contas públicas.
A questão, portanto, não é apenas o tamanho da dívida, mas a capacidade do país de administrá-la. Investidores observam se a economia cresce, se o governo consegue pagar seus compromissos e se a dívida segue uma trajetória controlável ao longo do tempo. Quando a confiança diminui, os juros tendem a subir, tornando essa dívida mais cara. Uma dívida de 90% do PIB não significa necessariamente crise. O problema é quando ela cresce sem que o país demonstre capacidade de controlá-la.
Há uma conclusão importante neste raciocínio: o Brasil pode ser simultaneamente a oitava maior economia do mundo e um país com desafios fiscais relevantes. Não há contradição nisso. Uma coisa fala do tamanho da nossa produção; a outra fala da saúde das contas públicas.
A principal lição é simples: estar entre as maiores economias do mundo é uma boa notícia, mas não conta toda a história. O tamanho da economia mostra quanto o país produz. A dívida mostra como suas contas estão sendo administradas. Para entender a verdadeira situação econômica de uma nação, é preciso observar os dois lados da moeda.
Alexandre Angélico
@alexandreangelico
Alexandre Angélico é Matemático e Economista formado pela USP e Mestre em Economia dos Mercados pelo Mackenzie.


