Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
Imagine uma equipe que começa o dia com uma lista de tarefas maior do que o tempo disponível. As prioridades mudam várias vezes, ninguém sabe exatamente quem deve decidir e, quando surge um problema, a cobrança vem antes da orientação. No fim do expediente, a sensação é de que todos trabalharam muito, mas nada foi realmente concluído.
Essa situação não deve ser analisada apenas como falta de organização individual. Ela pode revelar fatores de risco relacionados à forma como o trabalho é planejado, distribuído e conduzido.
A NR-1 estabelece que o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO, deve abranger também os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Esses fatores devem ser considerados de forma integrada aos riscos ergonômicos e em conjunto com as orientações da NR-17, que trata da adaptação das condições de trabalho às características dos trabalhadores.
Na prática, isso significa olhar para a organização do trabalho e perguntar:
Como as atividades são distribuídas? Há tempo e recursos suficientes? As responsabilidades estão claras? As pessoas recebem apoio? Existe espaço para participar das decisões que afetam seu trabalho?
O Guia de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais do Ministério do Trabalho apresenta exemplos que ajudam a reconhecer esses fatores no cotidiano. Entre eles estão a sobrecarga de trabalho, o assédio, a baixa clareza sobre funções e responsabilidades, a falta de apoio e a pouca autonomia. Não se trata de afirmar que toda pressão ou dificuldade representa, automaticamente, um risco grave. O importante é observar as condições existentes, sua frequência, intensidade, duração e possíveis efeitos sobre as pessoas.
Pense, por exemplo, em uma profissional que recebe metas incompatíveis com a jornada, não tem autonomia para organizar as tarefas e ainda é repreendida quando os prazos não são cumpridos. Em outro setor, imagine um trabalhador que presencia comentários humilhantes, mas não encontra um canal seguro para relatar o que acontece. São situações diferentes, mas ambas podem indicar problemas na organização ou nas relações de trabalho que precisam ser identificados e enfrentados.
A avaliação dos riscos psicossociais não tem como objetivo diagnosticar a saúde mental de cada trabalhador. Também não deve transformar o sofrimento em uma responsabilidade individual, como se bastasse desenvolver mais resiliência, controlar as emoções ou aprender a suportar condições inadequadas.
O foco deve estar nas condições concretas do trabalho. A empresa precisa identificar os fatores presentes, avaliar os riscos, adotar medidas preventivas e acompanhar se essas medidas estão funcionando. Quando pertinente, isso pode envolver revisão de metas, redistribuição de tarefas, melhoria da comunicação, definição mais clara de papéis, fortalecimento dos canais de prevenção e enfrentamento do assédio e ampliação do apoio às equipes.
A participação dos trabalhadores é essencial nesse processo. Quem vive a rotina conhece obstáculos que nem sempre aparecem em documentos, reuniões ou indicadores. Ouvir as equipes, preservar a segurança das manifestações e considerar diferentes experiências contribui para uma avaliação mais próxima da realidade.
Na minha atuação profissional, posso apoiar organizações na identificação, avaliação e prevenção de fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Esse apoio, porém, não substitui as responsabilidades legais da empresa nem a atuação técnica exigida dos profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho. Cada organização precisa construir suas medidas a partir de sua própria realidade e acompanhar sua aplicação.
Cuidar dos riscos psicossociais não é procurar culpados nem diagnosticar pessoas. É observar como o trabalho está organizado e perguntar, com seriedade: o que pode ser ajustado para que as atividades sejam realizadas com mais clareza, apoio, respeito e segurança?
Essa é uma ideia simples para guardar: quando o risco está na forma de organizar o trabalho, a prevenção também precisa começar por ela.
Proprietario da Ashells Psicanálise Clínica
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
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