Por Fabrizio Martins Tavoni
@fabriziotavoni_profissional
Hoje é 31 de outubro. Em algum prédio, no fim da tarde, uma bruxinha de uns cinco anos vai tocar a campainha do vizinho com um balde em forma de abóbora na mão, repetindo baixinho a frase que aprendeu na escola: “doces ou travessuras?”. Do outro lado da porta, um adulto que provavelmente nunca comemorou o Halloween na própria infância vai fingir susto e entregar um punhado de balas. Esta cena dura segundos, só que carrega mais de dois mil anos de história, algumas travessias de oceano e uma boa dose de economia.

Legenda: Criança fantasiada de bruxa toca a campainha de um vizinho no fim de tarde de 31 de outubro.
Vamos ao começo. Entre os povos celtas que habitavam as atuais Irlanda, Grã-Bretanha e norte da França, o fim de outubro marcava o Samhain: o encerramento da colheita e a entrada na metade escura do ano. Acreditava-se que, nessa virada, a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos ficava mais fina. Acendiam-se fogueiras e as pessoas se disfarçavam para não serem reconhecidas pelos espíritos que vagavam. Séculos depois, a Igreja fixou em 1º de novembro o Dia de Todos os Santos, e a noite anterior ganhou o nome inglês de All Hallows’ Eve, a véspera de todos os santos, que o uso encurtou para Halloween. Os historiadores ainda discutem o quanto da festa pagã sobreviveu dentro da cristã, mas é dessa mistura que vem, por exemplo, o costume medieval de pessoas pobres baterem de porta em porta pedindo pequenos bolos em troca de orações pelos mortos da casa.
A segunda virada acontece do outro lado do Atlântico. Com a grande imigração irlandesa para os Estados Unidos, sobretudo a partir da fome de 1845, a festa atravessou o oceano junto com quem não tinha quase nada para levar. Lá, o nabo esculpido que servia de lanterna virou abóbora, mais abundante e mais fácil de entalhar. Na passagem do século XIX para o XX, lideranças locais passaram a incentivar uma comemoração menos assustadora, e o vandalismo das “travessuras” das primeiras décadas do século XX foi sendo trocado pela distribuição de doces. O historiador Eric Hobsbawm chama isso de tradição inventada: não algo criado do nada, mas costumes antigos reorganizados para responder a necessidades novas. A noite dos mortos tornou-se a noite das crianças.

Legenda: Da lanterna de nabo à abóbora: a festa mudou de forma ao atravessar o Atlântico.
E aqui entra o terceiro personagem da história: a mercadoria. Segundo a Federação Nacional do Varejo dos Estados Unidos, os americanos devem gastar cerca de 13,5 bilhões de dólares com o Halloween em 2026, recorde histórico. São aproximadamente 4,4 bilhões em fantasias, 4,3 bilhões em decoração e 4,1 bilhões em doces, sem contar quase um bilhão em fantasias para animais de estimação. Karl Marx já observava que, no modo capitalista de produção, as relações entre pessoas tendem a aparecer como relações entre coisas. Uma festa que antes se fazia com o que havia em casa passa a ser algo que se compra, e o calendário do varejo encontra, entre o Dia das Crianças e a Black Friday, mais uma data para movimentar as prateleiras.
Foi nesse formato, já embalado, que o Halloween chegou a países que nunca o haviam comemorado, como o Brasil. Costuma-se apontar as escolas de inglês como uma das portas de entrada, seguidas pelos shoppings, pelas festas temáticas e, sobretudo, pelo cinema e pelas séries. Theodor Adorno e Max Horkheimer chamaram de indústria cultural esse sistema que produz bens simbólicos em série e, junto com eles, desejos e hábitos. O sociólogo brasileiro Renato Ortiz prefere falar em mundialização da cultura: referências que circulam pelo planeta e se tornam familiares para gente que nunca pisou no lugar onde nasceram. A abóbora, que não faz parte da nossa memória de outubro, passou a fazer parte da nossa paisagem.
Claro que houve uma reação nacional. Em 2003, a cidade paulista de São Luiz do Paraitinga instituiu o Dia do Saci na mesma data, e no ano seguinte o Estado de São Paulo transformou a ideia em lei, com o objetivo declarado de valorizar o folclore nacional. O curioso é que, em muitas escolas, a disputa terminou em convivência: bruxas, fantasmas, sacis e mulas sem cabeça dividem o mesmo pátio. Os sociólogos chamam isso de glocalização, quando o global é reinterpretado pelo local e devolvido com sotaque próprio.

Legenda: Bruxas e sacis no mesmo pátio: o global reinterpretado pelo local.
Nada disso, porém, precisa estragar a festa. O sociólogo Émile Durkheim mostrou que os rituais coletivos existem para produzir laços: por algumas horas, as pessoas fazem juntas algo fora do comum e, ao fazê-lo, reconhecem-se como grupo. Para uma criança, o Halloween é exatamente isso. É a permissão rara de bater na porta de um quase desconhecido, de inverter os papéis e assustar os adultos, de brincar com o medo até domesticá-lo. Entender de onde vem um costume não é o mesmo que condená-lo.
O que quero dizer é que o ponto mais interessante não seja se o Halloween é ou não “nosso”, mas o que fazemos dele. Uma festa pode ser vivida como uma lista de compras ou como um encontro entre vizinhos que mal se cumprimentam no elevador. Se, depois desta noite, alguém passar a dizer bom-dia a quem antes era só o morador do 52, o ritual terá cumprido a função que Durkheim lhe atribuía, e isso não está à venda em nenhuma prateleira.
Fabrizio Martins Tavoni é Sociólogo (UEL), Mestre em Ciência Política (UFSCar) e Doutorando em Educação (Unicamp).



