Por João Costa Bezerra
@psi.joaocosta
Em algum momento da vida, quase sem perceber, deixamos de dizer “estou sentindo” e começamos a dizer “eu sou assim”.
A tristeza passa a ter nosso nome.
O medo ganha nossa história.
A ansiedade aprende a falar por nós.
E então algo silencioso acontece: não apenas sentimos a emoção — passamos a morar dentro dela.
Talvez porque ela tenha chegado em um momento difícil.
Talvez porque tenha sido a única forma possível de sobreviver.
Talvez porque, por muito tempo, aquela emoção tenha sido a única linguagem disponível para explicar o mundo.
O sofrimento conhecido, curiosamente, pode parecer mais seguro do que a mudança desconhecida.
Existe um certo conforto em saber quem somos, mesmo quando essa definição nasce da dor. Afinal, se sempre fui triste, quem serei sem a tristeza?
Se sempre vivi em alerta, como será existir sem o medo?
Assim, protegemos emoções antigas como quem protege partes da própria identidade.
Mas emoções não nasceram para ser morada permanente.
Elas são movimentos.
São ondas atravessando a superfície da consciência.
São mensagens que chegam para revelar algo importante — não para nos aprisionar.
A tristeza pode pedir pausa.
A raiva pode pedir limite.
O medo pode pedir proteção.
A alegria pode pedir presença.
Nenhuma delas pede para se tornar quem você é.
Talvez o amadurecimento emocional não seja aprender a controlar o que sentimos, mas perceber que existe um espaço dentro de nós que observa todas as emoções sem se confundir com nenhuma delas.
Existe um “eu” anterior à emoção.
Um lugar interno que permanece, mesmo quando tudo muda.
Quando percebemos isso, algo se suaviza.
A tristeza deixa de ser identidade e volta a ser experiência.
O medo deixa de ser destino e volta a ser sinal.
A emoção deixa de ser prisão e volta a ser caminho.
Porque sentir intensamente nunca foi o problema.
O problema começa quando esquecemos que somos maiores do que aquilo que sentimos.
E talvez hoje a pergunta não seja:
Qual emoção me define?
Mas sim:
Quem sou eu quando permito que as emoções passem… sem precisar me tornar elas?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KANDEL, Eric. “Biologia e aprendizagem emocional”. Discussões sobre memória emocional e transformação psíquica em processos de mudança.
HAYES, Steven C. et al. Estudos sobre fusão cognitiva e flexibilidade psicológica na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).
LINEHAN, Marsha M. Artigos sobre regulação emocional e construção da experiência emocional na DBT.
MINI CURRÍCULO
João Costa Bezerra
Psicoterapeuta especializado em saúde mental de crianças, adolescentes e adultos.
Atua com TCC, DBT, Terapia do Esquema e Psicologia Analítica, ajudando pessoas a desenvolverem regulação emocional, flexibilidade e autonomia para lidar com seus desafios psicológicos.
Para mais informações: (11) 98436-1978



