Por Clariana Grosso
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Vivemos em uma cultura que transformou produtividade em valor moral. Descansar, muitas vezes, deixou de ser entendido como necessidade humana para ser visto como desperdício de tempo. Mesmo diante do cansaço extremo, muitas pessoas sentem culpa ao parar. Como se o descanso precisasse ser merecido.
Na prática, isso aparece em frases comuns: “eu deveria estar fazendo algo”, “não produzi o suficiente hoje”, ou “se eu descansar agora, vou perder tempo”. O corpo pede pausa, mas a mente continua em estado de cobrança permanente.
A psicanálise ajuda a compreender esse fenômeno para além da rotina acelerada. Para Sigmund Freud, a civilização exige renúncias constantes dos impulsos individuais em favor da adaptação social. Em O Mal-Estar na Civilização, Freud aponta que a culpa nasce justamente da internalização dessas exigências externas. O sujeito passa a se vigiar, mesmo quando ninguém mais está cobrando.
Esse mecanismo aparece no conceito de superego — uma espécie de instância psíquica que impõe regras, deveres e ideais. Hoje, esse superego contemporâneo parece repetir: “produza mais”, “não pare”, “seja eficiente o tempo todo”. O descanso, então, entra em conflito com esse ideal de desempenho contínuo.
O psicanalista Byung-Chul Han, influenciado pela tradição psicanalítica e filosófica, amplia essa reflexão ao afirmar que vivemos na “sociedade do desempenho”. Nela, o indivíduo não é apenas explorado por sistemas externos, mas por si mesmo. A cobrança deixa de vir exclusivamente do outro e passa a ser internalizada como autocobrança. O resultado é uma geração cansada, ansiosa e incapaz de repousar sem culpa.
Vemos que essa cobrança e sentimento de culpa, ocorre demasiadamente com as mães, principalmente na fase do puerpério e nos primeiros anos de vida da criança. Essas mulheres sentem um peso enorme diante de tantas obrigações, tarefas a serem cumpridas e na maioria das vezes, não tem rede de apoio ou não sentem se à vontade para pedir ajuda por medo, vergonha e discriminação.
Descansar tornou-se desconfortável porque o silêncio da pausa nos coloca diante de nós mesmos. Sem distrações, sem metas imediatas e sem a sensação constante de utilidade, muitas pessoas entram em contato com vazios emocionais que prefeririam evitar. Por isso, às vezes, permanecer ocupado parece mais fácil do que parar.
Mas há um paradoxo importante: ninguém sustenta equilíbrio emocional em estado permanente de exaustão. O excesso de produtividade pode até gerar reconhecimento externo, mas frequentemente cobra um preço interno alto — irritabilidade, ansiedade, insônia, adoecimento emocional e perda de sentido.
Descansar não deveria ser prêmio por excesso de esforço. É uma condição básica de saúde psíquica. Pausa não é fracasso, improdutividade ou fraqueza. É uma necessidade humana legítima.
Talvez uma das tarefas emocionais mais difíceis da atualidade seja justamente reaprender a descansar sem precisar justificar isso o tempo todo.
Referências
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço.
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id.
*Sou Clariana Grosso, psicóloga clínica com experiência no atendimento de pessoas com crises de ansiedade, depressão, exaustão mental e autoconhecimento. Se você está se sentindo sobrecarregada (o), entre em contato comigo.



