Por Elisângela Santos
Especialista em búzios e cartas
Instagram: @desvendando_os_segredos Contato: (71) 99280-7802
A Sexta-feira Santa é, para muitos brasileiros, um dia de silêncio, respeito e espiritualidade. Mas o que nem sempre é dito é que essa data também atravessa as religiões de matriz africana — não como mera repetição de tradição, mas como vivência cultural e ancestral.
Nós, do Axé, também temos fé.
E a nossa fé também está à mesa.
O peixe, alimento tradicional dessa data, carrega um significado que vai além da prática cristã de abstenção da carne vermelha. Para as tradições afro-brasileiras, as águas representam vida, purificação, continuidade e força espiritual. Comer peixe nesse dia é também honrar a energia das águas, reconhecer a natureza como sagrada e reafirmar o vínculo com os ensinamentos ancestrais.
Não se trata apenas de tradição — trata-se de simbolismo.
Mas a Sexta-feira Santa, na Bahia e em tantos lares de matriz afrodescendente, não é feita só de peixe. A comida baiana completa ocupa lugar central: o dendê que colore, o vatapá que acolhe, o caruru que reúne, o arroz branco que equilibra, o feijão fradinho que sustenta.
Cada prato é memória.
Cada tempero é história.
Cada receita é resistência.
A culinária baiana não é apenas gastronomia; é patrimônio cultural vivo. É a permanência de saberes africanos que atravessaram séculos e resistiram às tentativas de apagamento. É a expressão do Axé naquilo que nos alimenta — no corpo e no espírito.
E nesse dia, o branco também se faz presente.
Vestir branco é gesto simbólico. Representa paz, respeito, purificação e conexão espiritual. É uma forma de alinhar o corpo à intenção do dia: recolhimento, reflexão e reverência ao sagrado.
Na Sexta-feira Santa, nossas mesas se tornam espaços de encontro entre tradições. Há sincretismo, há diálogo, há convivência. Há fé.
Porque a fé do Axé não está apenas nos terreiros.
Ela está na comida compartilhada.
Na roupa branca vestida com intenção.
Na memória ancestral que atravessa gerações.
Nossa fé também está à mesa.
Está no peixe.
Está no dendê.
Está no branco que veste o respeito.
E acima de tudo, está no Axé que nos sustenta.
Fonte: Própria



