Por André Henrique
Enquanto muita gente procura alimentos exóticos e suplementos caros, um verdadeiro tesouro nutricional pode estar crescendo no quintal de casa. As chamadas PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) vêm conquistando chefs, nutricionistas, pesquisadores e ambientalistas por unir biodiversidade, segurança alimentar, sustentabilidade e alto valor nutricional. A recente reportagem sobre flores comestíveis, como lavanda, hibisco e capuchinha, mostra que muitas plantas ornamentais também podem fazer parte da alimentação, despertando a curiosidade sobre esse universo ainda pouco conhecido.
Mas afinal, o que são as PANCs?
O que são as PANCs?
PANC é a sigla para Plantas Alimentícias Não Convencionais. O termo foi popularizado pelo biólogo brasileiro Valdely Ferreira Kinupp, que definiu esse grupo como plantas, ou partes de plantas, que possuem potencial alimentício, mas que não fazem parte da alimentação cotidiana da maioria da população. Isso inclui folhas, flores, frutos, sementes, raízes e até partes normalmente descartadas de espécies conhecidas.
Muitas dessas plantas são tratadas como ervas daninhas simplesmente porque o conhecimento sobre seu uso foi sendo perdido ao longo das últimas décadas. Com a expansão da agricultura baseada em poucas culturas comerciais, milhares de espécies comestíveis acabaram sendo esquecidas.
Hoje, estima-se que existam milhares de espécies vegetais com potencial alimentício no Brasil, um dos países mais ricos em biodiversidade do planeta. No entanto, apenas um pequeno número de culturas domina a alimentação mundial, reduzindo a diversidade nutricional disponível.
Muito mais do que comida
As PANCs representam muito mais do que uma curiosidade gastronômica.
Elas possuem grande importância para a conservação da biodiversidade, valorização dos conhecimentos tradicionais, fortalecimento da agricultura familiar e promoção da segurança alimentar. Muitas espécies apresentam elevada resistência às mudanças climáticas, necessitam de poucos insumos agrícolas e podem ser cultivadas praticamente sem agrotóxicos.
Além disso, diversas pesquisas mostram que muitas PANCs possuem altos teores de fibras, vitaminas, minerais, proteínas e compostos antioxidantes, podendo enriquecer significativamente a alimentação.
As flores também entram no prato
Quando pensamos em flores, normalmente imaginamos jardins. Porém, várias delas são totalmente comestíveis e fazem parte das PANCs.
Capuchinha, hibisco, calêndula, amor perfeito, flor de abóbora, lavanda e rosas podem ser utilizadas em saladas, sobremesas, chás, geleias, bebidas e até pratos sofisticados.
Além de oferecerem beleza aos alimentos, muitas flores são ricas em flavonoides, carotenoides e compostos antioxidantes, que ajudam na proteção das células contra os radicais livres. No entanto, existe um cuidado fundamental: nem toda flor pode ser consumida. É indispensável conhecer corretamente a espécie e utilizar apenas plantas cultivadas sem pesticidas ou outros produtos químicos.
Dez PANCs que merecem espaço na sua alimentação
1. Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata)
Conhecida pelo alto teor de proteínas, fibras, ferro e cálcio. Muito utilizada em refogados, sopas e tortas.
2. Taioba (Xanthosoma sagittifolium)
Suas folhas, quando corretamente identificadas e preparadas, são excelentes fontes de vitaminas e minerais.
3. Beldroega (Portulaca oleracea)
Rica em ômega 3, vitaminas e antioxidantes. Pode ser consumida crua em saladas.
4. Jambu (Acmella oleracea)
Famoso pelo efeito levemente anestésico na boca. Muito utilizado na culinária amazônica.
5. Capuchinha (Tropaeolum majus)
Folhas e flores possuem sabor levemente picante e deixam saladas muito mais coloridas.
6. Peixinho da horta (Stachys byzantina)
As folhas empanadas lembram o sabor de peixe quando fritas, origem de seu nome popular.
7. Caruru (Amaranthus spp.)
Muito nutritivo, fornece proteínas, ferro e diversos minerais.
8. Vinagreira (Hibiscus sabdariffa)
Utilizada em chás, geleias, sucos e saladas. Possui sabor ácido bastante agradável.
9. Bertalha (Basella alba)
Folhas ricas em vitaminas que podem substituir o espinafre em diversas receitas.
10. Flor de abóbora
Muito utilizada recheada, empanada ou em saladas. É uma das flores comestíveis mais conhecidas no Brasil.
Um resgate da biodiversidade brasileira
As PANCs representam uma oportunidade única para aproximar as pessoas da natureza. Ao resgatar espécies esquecidas, valorizamos o conhecimento tradicional, reduzimos a dependência de poucos alimentos cultivados em larga escala e incentivamos sistemas agrícolas mais sustentáveis.
Para um país megadiverso como o Brasil, investir no conhecimento e no uso consciente dessas plantas significa preservar parte de nossa riqueza biológica e cultural. Afinal, muitas vezes o alimento mais nutritivo não está na prateleira do supermercado, mas crescendo discretamente no quintal, esperando apenas ser reconhecido.
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André Henrique de Rezende Almeida
@BIOLOGOANDREHENRIQUE
Biólogo CRBio 02: 60.945
Engenheiro Ambiental CREA: ES-055476/D



