Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
@psicanaliseativainpc
Eu não sei como é na sua família, mas vou arriscar uma cena: um almoço de domingo, mesa cheia, panela no fogão, alguém falando alto demais na ponta da mesa, outro calado demais no canto. Uma avó que coloca comida no seu prato mesmo quando você diz que não quer. Um avô que quase nunca fala de si, mas faz questão de pagar a conta. Ninguém está dizendo com todas as letras “é assim que se ama”, mas o recado passa mesmo assim.
É nessa pedagogia silenciosa que nascem muitas das nossas heranças emocionais.
Às vésperas do Dia dos Avós, eu penso muito nas marcas afetivas que atravessam gerações: o jeito de abraçar, de se preocupar, de ficar em silêncio, de guardar mágoas, de pedir desculpas (ou de nunca pedir), de demonstrar carinho com comida, com dinheiro, com tensão. Não é só o que eles fizeram por nós; é o que a família ensinou, sem falar, que amor e cuidado significam.
Talvez você tenha crescido ouvindo frases como: “Não chora, engole esse choro.” “Problema da casa não se comenta fora.” “Melhor aguentar quieto do que criar confusão.” “Família é tudo, mesmo quando dói.”
Essas frases parecem pequenas, mas vão se acumulando como camadas de tinta na parede. Um dia, você se vê repetindo gestos que não escolheu. Você se cala quando queria se posicionar. Você engole o choro quando o corpo está pedindo justamente o contrário. Você fica em relações que já acabaram por dentro, porque aprendeu que sair é sinônimo de ingratidão.
Penso numa cena muito comum: você está na sala, visitando os avós. Eles começam a contar histórias de “antigamente”, de um tempo em que não se falava de sentimentos, em que separação era vergonha, terapia era “coisa de gente fraca”, e o certo era aguentar. Enquanto eles falam, você percebe que muita coisa que sente hoje tem raiz ali. O medo de decepcionar. A dificuldade de dizer “não”. A culpa por desejar uma vida diferente.
E aí, vem a pergunta silenciosa: o que eu faço com tudo isso que herdaram para mim sem me perguntar?
Autonomia afetiva, para mim, começa nesse ponto. Não é um rompimento com a família, nem uma rebeldia vazia. É como se eu aprendesse a olhar para a minha árvore genealógica com mais nitidez: aqui tem amor, tem esforço, tem sobrevivência. E também tem dor, silenciamento, padrões que já não fazem sentido para o mundo em que eu vivo.
Eu não preciso amar menos meus avós, meus pais, para escolher um caminho afetivo mais consciente. Mas eu preciso, sim, reconhecer que eu não fui feito só de escolhas. Fui feito de repetições. E que repetir no automático é diferente de honrar.
Honrar não é copiar a forma. É preservar a essência.
Talvez a sua avó tenha aprendido a amar cozinhando sem parar, porque nunca pôde dizer “tenho medo de que me faltem”. Talvez o seu avô tenha mostrado cuidado pagando a conta, porque nunca conseguiu dizer “eu gosto de você”. A forma pode não servir mais para você. A essência, sim: amor, cuidado, presença.
Autonomia afetiva é quando eu olho para essas formas que recebi e me pergunto:
“Isso ainda me serve?”
“Isso me aproxima de mim ou me afasta?”
“Esse jeito de amar respeita quem eu sou hoje?”
Às vezes, a virada acontece numa cena simples. Você está num encontro de família e percebe que está prestes a repetir um padrão antigo: se calar na hora em que alguém atravessa seu limite, aceitar uma brincadeira que machuca, dizer “tá tudo bem” quando não está. E, dessa vez, você respira um pouco mais fundo e faz diferente. Não precisa ser um discurso épico. Às vezes é só dizer com calma: “Isso me incomoda, eu prefiro que não seja assim.”
Pode ser que alguém estranhe. Pode ser que alguém se irrite. Pode ser que ninguém entenda. Mas, por baixo do desconforto, existe um movimento importante acontecendo: uma geração tentando amar sem se abandonar.
Quando eu falo de autonomia afetiva, eu não estou falando de independência fria, daquelas que dizem “não preciso de ninguém”. Estou falando de uma presença inteira em si, que escolhe se relacionar sem se trair. Que olha para trás e reconhece: “Eu vim daí, mas não sou só isso.” Que olha para os avós e, ao invés de julgar, compreende o contexto deles e ainda assim se autoriza a fazer diferente.
Porque talvez o maior gesto de amor que podemos oferecer à nossa história familiar seja justamente esse: interromper, com cuidado e consciência, aquilo que nos feriu sem intenção. Transformar herança em escolha. Receber o afeto que eles souberam dar, e ao mesmo tempo criar formas novas de amar, mais alinhadas com a vida que temos hoje.
Quando o Dia dos Avós chegar, entre a foto com sorriso, o bolo, o telefonema ou a lembrança de quem já se foi, talvez você possa fazer um pequeno rito interno: agradecer o caminho que veio antes, com suas faltas e seus excessos, e prometer a si mesmo não viver no piloto automático.
A frase que fica, se eu pudesse condensar tudo isso, seria algo assim:
eu posso honrar de onde eu vim, sem precisar repetir tudo o que aprendi.
É nesse espaço delicado entre raízes e escolhas que a autonomia afetiva acontece: eu reconheço a história, abraço o que me nutre, cuido do que me fere e sigo adiante mais inteiro, mais verdadeiro, mais meu.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353



