Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Às vezes, a violência não começa com um grito. Começa com uma pergunta aparentemente simples: “Com quem você estava?”. Depois vem a exigência de uma senha, a crítica à roupa, o desconforto quando você encontra amigos, a necessidade de justificar cada minuto do dia. Aos poucos, o cuidado vai ganhando a forma do controle e o amor, que deveria ampliar a vida, começa a diminuir o espaço para respirar.
Nesta Semana da Consciência sobre a Violência Doméstica, eu quero conversar sobre essas marcas menos visíveis. Nem toda violência deixa hematomas. Algumas deixam a pessoa insegura, confusa, sempre se perguntando se exagerou, se falou demais, se provocou a reação do outro. Há quem peça desculpas por existir dentro da própria casa.
Penso naquela cena tão comum: alguém recebe uma mensagem de um amigo e, antes mesmo de responder, olha para o lado, tentando prever a reação do companheiro. Ou naquela pessoa que cancela um encontro porque sabe que terá de enfrentar uma discussão depois. Com o tempo, ela deixa de escolher livremente. Passa a calcular. Mede palavras, gestos, silêncios. Não porque perdeu a vontade de viver, mas porque aprendeu a evitar conflitos para sobreviver emocionalmente.
Também existe a violência que se disfarça de preocupação: “Eu só quero o seu bem”; “Faço isso porque amo você”; “Ninguém vai cuidar de você como eu”. Quando essas frases aparecem acompanhadas de isolamento, humilhação, ameaças, chantagens ou desvalorização constante, é importante prestar atenção. O amor não precisa vigiar para permanecer. O vínculo não deveria exigir que uma pessoa desaparecesse para que a outra se sentisse segura.
Mas reconhecer isso nem sempre é fácil. Muitas vezes, quem vive uma relação abusiva ainda ama, sente saudade dos momentos bons e acredita que a pessoa pode mudar. Essa ambivalência não torna a dor menos verdadeira. Pelo contrário: mostra como os ciclos de violência podem misturar afeto, medo, esperança e culpa. Não cabe a mim perguntar por que alguém não foi embora antes. Cabe perguntar: o que essa pessoa precisou suportar para continuar ali?
Na psicanálise, eu encontro um espaço para escutar justamente aquilo que muitas vezes foi silenciado. Sem julgamentos apressados, a pessoa pode começar a perceber como foi se afastando de si mesma, quais medos a mantêm presa e que desejos ainda sobrevivem por baixo da culpa. Esse processo não oferece fórmulas prontas nem substitui uma rede de proteção. Mas pode ajudar a recuperar a própria voz e, com ela, a possibilidade de fazer escolhas mais conscientes.
A virada acontece quando a pergunta deixa de ser “como faço para que o outro me ame sem me machucar?” e passa a ser “o que eu preciso para voltar a me sentir segura dentro da minha própria vida?”. Nem sempre a resposta vem de uma vez. Às vezes, começa com uma conversa confidencial, um documento guardado, um contato retomado, um pedido de ajuda. Recomeçar pode ser silencioso, mas nunca é pequeno.
Se você vive uma situação de violência, procure alguém de confiança e, quando possível, orientação especializada. No Brasil, o Ligue 180 oferece atendimento e orientação; em uma emergência, ligue 190. Se preferir, compartilhe comigo, de forma anônima, estratégias que ajudaram você ou alguém próximo a recuperar um pouco de espaço para respirar. Depoimentos em texto ou áudio podem nascer da frase: “O momento em que percebi que precisava de espaço para respirar foi…”.
Eu acredito que autonomia afetiva não é deixar de amar. É não precisar se abandonar para ser amado. Porque o amor que liberta não fecha portas, não apaga vozes, não transforma medo em prova de lealdade. Ele permite presença, escolha e ar.
E, às vezes, recuperar a autonomia começa assim: respirando fundo e lembrando que a nossa vida também pertence a nós.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353



