Por Fabrizio Martins Tavoni
Sociólogo e Naturista.
@fabriziotavoni_profissional
No último encontro do SPNat fez frio em Atibaia; um frio que não pertence a setembro. A sensação térmica desceu a sete graus, o céu descarregava hora chuva forte, hora chuva fina e insistente, e o vento procurava qualquer brecha. É o tipo de tempo que, na lógica do senso comum, deveria esvaziar um encontro naturista. Mas, no entanto, o sítio estava cheio.
No frio as pessoas naturistas se protegem. Vestidas, agasalhadas, reunidas na casa ou recolhidas às barracas. Conversam, riem, reclamam do frio, porque reclamar do frio é, no fundo, uma forma de estar junto. Pois a queixa vira liga social, pretexto para dividir um chá quente, aproximar as cadeiras, ocupar o mesmo cômodo. E, quando o abrigo permite, a roupa sai: dentro de casa, alguns ficam nus divertindo-se com jogos de tabuleiro, sinuca ou apenas mais uma conversa; junto à fogueira, nos intervalos da chuva, outros também (e este foi o meu caso) ficam com o corpo nu recebendo o calor das chamas enquanto a noite gelava tudo ao redor.

Legenda: Nu diante da fogueira. O corpo não desafia o frio. Foto: Fabrizio Tavoni.
Isso demonstra bem que naturismo não é teimosia contra o corpo. Não se fica nu para provar resistência ao frio; fica-se vestido quando o frio pede, e nu quando o abrigo permite. O naturista não despreza o conforto do corpo, pois a nudez não é penitência; mas sim é o estado em que o corpo repousa quando as condições o acolhem. E a fogueira, ali, foi esse acolhimento.
Um setembro fora do lugar
Esse frio atípico não é acidente. Poucos dias antes, uma onda de calor sufocante. Depois, sem transição, o ar frio e a chuva. O clima já não obedece ao calendário, oscila em extremos, salta do abafado ao gélido em questão de dias, às vezes horas. O que sentimos na pele, no sítio de Atibaia, é a assinatura das mudanças climáticas escrita sobre o próprio corpo.
Quem convive com o corpo despido conhece a temperatura de um jeito que a roupa embaralha as sensações, pois a pele é um instrumento de leitura do mundo. Quando setembro chega gelado, quando o calor de ontem vira o frio de hoje, o naturista sente o descompasso com uma nitidez que poucos têm.
A natureza não é cenário
Para o naturista, a natureza não é um mero pano de fundo bonito para uma foto instagramável. É, principalmente, a condição da prática, o lugar onde o corpo se reconcilia com o mundo do qual foi separado por séculos de vergonha e de puritanismo. E se o corpo é parte da natureza, cuidar dela não é acessório do naturismo, é na realidade a sua consequência lógica.

Legenda: Diante do fogo, o corpo se descobre pequeno — parte da natureza, não senhor dela. Foto: Gildo Mazza.
Durante o encontro foram realizadas dinâmicas climáticas: momentos de conversa e reflexão sobre o que está acontecendo com o clima e sobre o que nos cabe fazer diante disso. E o gesto se traduziu em ato concreto, com mais de 42 quilos de resíduos recicláveis recolhidos e destinados corretamente.

Legenda: Mais de 42 quilos separados e destinados: o cuidado com o corpo que se estende ao mundo que o abriga. Foto: Fabrizio Tavoni
Quarenta e dois quilos. É um número que diz mais do que parece. Diz que reverenciar o corpo como obra da natureza e cuidar da natureza que o abriga são o mesmo movimento, já que não se celebra a pele e se despreza a terra sobre a qual ela caminha.
O que fica
No fim, o frio de Atibaia ensinou que o naturismo não depende do sol (claro, ele é bem-vindo), depende do sentido. Ensinou que a comunidade pode se aquecer por dentro, na conversa, na queixa compartilhada, no chá dividido, no calor de uma fogueira. E ensinou que ficar nu ou ficar vestido não é o ponto, o ponto é a relação livre e atenta com o próprio corpo, que sabe quando se expor e quando se abrigar.
Saímos com frio, alguns encharcados, todos felizes. E essa é uma definição mais honesta de um encontro naturista bem-sucedido.



