Por Fabiana Ribeiro
A arteterapia está pautada em princípios da Psicologia junguiana, sendo considerado a perspectiva de que as imagens produzidas emergem espontaneamente do inconsciente e representam uma linguagem simbólica da psique, expressando conteúdos que não podem ser compreendidos racionalmente. Então, considerando que estes símbolos são subjetivos e pertencentes a um ser, constituído historicamente, possivelmente você esteja se perguntando, mas de que modo o arteterapeuta pode interpretar estas imagens e propiciar ao seu atendido uma compreensão de si e de suas emoções e sentimentos?
Na arteterapia, a interpretação das imagens produzidas pelo paciente é um processo extremamente complexo, ético e não se restringe a significados pré-estabelecidos ou universais, ou seja, o significado das imagens serão atrelados ao contexto de vida do paciente, o momento do processo terapêutico e respeito a sua singularidade. Destarte, por exemplo, em um setting terapêutico um paciente traz em sua prática expressiva a representação de uma casa, universalmente a casa pode ser observada como um local de refúgio e proteção, um lugar para orientar se no espaço e organizar a vida, lugar de pertencimento, introspecção. No entanto, diante deste símbolo o arteterapeuta precisa entender o contexto em que esta casa se insere na história do paciente, como esta casa está representada, se ela tem portas, janelas, se estão abertas ou fechadas, o que está no entorno desta casa, em que espaço do suporte utilizado esta casa foi representada, enfim, a observância de detalhes que se constituem em informações importantes para o entendimento desta imagem. Porém, convém ressaltar que o arteterapeuta não decifra a imagem, ele favorece o diálogo entre o sujeito e sua produção artística, de forma que o próprio paciente construa significados a partir de suas vivẽncias, de sua história.
Quando a imagem está materializada, o arteterapeuta em setting terapêutico conduz o paciente a observar sua obra e expressar dialogicamente o que ele representou e através de questionamentos objetivos e coesos, o paciente tende a compreender o que antes não lhe era revelado. A escuta sensível do arteterapeuta é fundamental para que ele conduza as práticas e tenha êxito na consolidação do processo de emancipação deste paciente.
De acordo com Kramer (1971), é importante que o arteterapeuta observe o processo criativo como um todo, observando a forma como o símbolo foi construído, a escolha dos materiais, as cores utilizadas, a organização espacial, os movimentos, a qualidade da linha, o ritmo e o envolvimento emocional do paciente durante o processo de criação, todo este contexto é tão significativo, quanto o produto final. Ciornai (2004), aborda algo extremamente importante para o êxito da prática terapêutica em arteterapia, a isenção de julgamentos. É necessário informar o paciente que sua prática expressiva não está atrelada a estética e que sua individualidade e subjetividade será respeitada sem qualquer intencionalidade de julgamentos. A função do terapeuta é de ampliar sua consciência, através da relação estabelecida entre o sujeito e seu símbolo, considerando todos os aspectos acima citados e não a interpretação isolada e descontextualizada.
Dessa forma, o arteterapeuta atua como um facilitador da construção de sentidos, e não como um intérprete que impõe verdades sobre a imagem. É essencial que a escuta do arteterapeuta seja constituída em uma postura fenomenológica, acolhendo as obras como se apresentam e permitindo que seus significados emerjam gradualmente ao longo do processo terapẽutico, oportunizando ao seu atendido que ele seja autônomo e que sua identidade seja fortalecida, através do processo de reconhecer, simbolizar e integrar conteúdos psíquicos a sua consciência através da verbalização.
Assim, o arteterapeuta não interpreta a imagem sozinho, obviamente através de suas pesquisas ele compreende este símbolo, mas ele necessita estabelecer um diálogo respeitoso com o universo simbólico do paciente, considerando a expressão artística do paciente como um espaço vivo de encontro com a arte, emoção e consciência, auxiliando o mesmo a elaboração de conflitos internos e externos, ao autoconhecimento e ao desenvolvimento humano.
Fonte: CIORNAI, Selma (Org.) Percursos em Arteterapia, Arteterapia Gestáltica e Transdisciplinaridade. São Paulo:Summus, 2004.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
KRAMER, Edith. Art as Therapy with Children. New York: Schocken Books, 1971.
Por Fabiana Ribeiro dos Santos, pedagoga, psicopedagoga, arteterapeuta, Neuroeducadora, graduanda em Terapia Ocupacional, pós graduanda em Ludicidade e Artes, Análise do Comportamento e Psicologia Ativa, gestão de pessoas e Saúde no Trabalho.



