Por Erika Ricci
É crescer acreditando que você nunca é bom o suficiente
O TDAH é frequentemente lembrado pela dificuldade de manter a atenção, pela inquietação ou pela impulsividade. Mas, na prática clínica, o que costuma deixar marcas mais profundas nem sempre são os sintomas em si. São as mensagens que muitas crianças recebem ao longo do desenvolvimento.
_ “Você é preguiçoso.”
_ “Você só faz quando quer.”
_ “Se prestasse mais atenção, conseguiria.”
_ “Seu irmão consegue. Por que você não?”
A criança com TDAH, muitas vezes, se esforça mais do que as outras para realizar tarefas que parecem simples. Ela tenta lembrar o que esquece, controlar impulsos, organizar materiais, iniciar atividades e manter o foco. E, quando não consegue, o resultado costuma ser interpretado como falta de interesse ou de dedicação.
Com o tempo, essas experiências repetidas deixam de ser apenas comentários. Elas começam a construir a forma como a criança enxerga a si mesma. Em vez de pensar “eu tenho dificuldade para fazer isso”, ela pode passar a acreditar: “eu sou incapaz”, “eu nunca consigo”, “não adianta tentar”.
É justamente aí que mora um dos maiores riscos do TDAH: quando o transtorno deixa de afetar apenas a atenção e passa a comprometer a autoestima, a confiança e a disposição para enfrentar novos desafios.
Compreender o diagnóstico não significa diminuir expectativas ou justificar qualquer comportamento. Significa oferecer estratégias adequadas, ajustar o ambiente e ensinar habilidades que essa criança ainda está desenvolvendo.
Porque nenhuma criança deveria crescer acreditando que o seu maior problema é falta de esforço, quando, na verdade, ela passou anos fazendo muito mais força do que os outros conseguiam enxergar.
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
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