Por Paula Silveira
Autores: Drica Parreira,
Presidente do Conselho Maior e
Fabrízio Martins Tavoni,
Sociólogo e naturista
@fbrn_oficial
O naturismo é, acima de tudo, um estilo de vida baseado no respeito, na liberdade e na igualdade entre as pessoas. Quando todos estão sem roupas, o que realmente importa é o caráter, a educação, a empatia e a forma como cada indivíduo se relaciona com o próximo e com o meio ambiente.
Falar sobre inclusão no naturismo é reconhecer que esse movimento deve acolher pessoas de todas as idades, corpos, etnias, origens, crenças, identidades e PCDs (Pessoas com Deficiências). A diversidade humana faz parte da natureza e o naturismo encontra justamente na naturalidade do corpo um dos seus principais valores.
A inclusão também significa garantir que todos se sintam seguros e respeitados. Um ambiente naturista saudável combate preconceitos, discriminação, gordofobia, etarismo, racismo e qualquer forma de exclusão.

Na maioria dos ambientes naturistas, podemos dizer que isto ocorre, porém, ainda precisamos adequar esses ambientes às necessidades de pessoas com deficiência e/ou síndromes.
A pessoa cadeirante nem sempre consegue acessar algumas praias, por ficarem em áreas de difícil acesso; pessoas autistas precisam de ambientes mais tranquilos, necessitando de um espaço longe de barulhos que as desregulem; a pessoa surda precisa de linguagem de sinais: quem de nós tem o domínio de Libras? E essa realidade já chegou ao nosso meio. Anualmente, na Praia de Tambaba, temos um participante surdo que prestigia o surf naturista e a comunicação é precária. Os sites nem sempre possuem recursos de acessibilidade e apresentam barreiras digitais, que impedem a navegação autônoma e a compreensão do conteúdo por usuários cegos ou de baixa visão.
Para além dessas barreiras, existem outras tantas que muitas vezes nem percebemos. Pessoas com nanismo, por exemplo, podem enfrentar dificuldades com a altura de bancos, mesas e outros móveis. E não podemos esquecer das deficiências invisíveis, como doenças autoimunes, condições cardíacas ou renais, que exigem atenção redobrada com exposição solar, hidratação e acesso rápido a sombra e atendimento médico.

O naturismo precisa correr atrás do prejuízo e estar atento a esta demanda que está ganhando força no mundo e deve também fazer parte do naturismo. Precisamos aumentar nosso alcance e criar uma cultura mais humana, empática e realmente inclusiva.
Mas como fazer isso na prática? Algumas atitudes concretas podem transformar nossos espaços:
Acessibilidade física: além de rampas para cadeiras de rodas, é fundamental pensar em cadeiras anfíbias que permitam o banho de mar com segurança, banheiros adaptados, vagas de estacionamento exclusivas e sinalização tátil para orientação de pessoas com deficiência visual;
Acessibilidade comunicacional: incentivar voluntários na formação de Libras é um passo essencial. Além disso, disponibilizar materiais impressos em braile, oferecer audiodescrição em eventos e utilizar recursos visuais e legendas em vídeos e palestras amplia o alcance da nossa comunicação;
Ambientes sensoriais: criar espaços de silêncio ou “zonas tranquilas” em eventos é uma forma de acolher autistas e pessoas com hipersensibilidade sensorial. A natureza já nos oferece esse refúgio, mas precisamos sinalizá-lo e, principalmente, garanti-lo;
Acessibilidade digital: seguir as Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web (WCAG) em nossos sites e aplicativos garante que pessoas cegas ou com baixa visão possam navegar com autonomia. Isso inclui descrições de imagens, contraste adequado e compatibilidade com leitores de tela;
Capacitação e sensibilidade: promover rodas de conversa sobre inclusão e capacitismo ajuda a desconstruir preconceitos e preparar a comunidade para receber todos com respeito e acolhimento.
Sabemos o quão difícil pode ser fazer todas essas transformações. Exigem planejamento, recursos financeiros, formação de equipes e, acima de tudo, tempo, algo que nem sempre temos em abundância. Mas é importante lembrar que a inclusão não se constrói da noite para o dia, e sim com passos consistentes e contínuos. Cada rampa instalada, cada voluntário capacitado em Libras, cada espaço de silêncio criado é uma vitória que aproxima o naturismo do ideal que ele mesmo proclama. O importante é começar, errar, aprender e seguir em frente, sempre com o ouvido atento às vozes das próprias pessoas com deficiência, que são as maiores especialistas em suas necessidades.
Os eventos devem pensar na acessibilidade, na comunicação, no acolhimento. Orientar e respeitar cada participante em sua necessidade é contribuir para um ambiente familiar, saudável e livre de julgamentos.
A inclusão não é um favor que fazemos, é um direito que garantimos. Quando adaptamos nossos espaços e nossa comunicação, não estamos apenas abrindo portas para PCDs; estamos enriquecendo o naturismo com novas perspectivas, histórias e vivências, pois como disse Paulo Freire, embora em outro contexto, mas que também serve aqui: “A inclusão acontece quando se aprende com as diferenças e não com as igualdades”.
Construir um naturismo verdadeiramente inclusivo é responsabilidade de todos e com essa breve reflexão deixo aqui uma pequena tarefa: que naturismo vamos oferecer para os PCDs?
Whatsapp: +55 11 99759-5116
Conheça mais sobre a Federação Brasileira de Naturismo pelo site www.fbrn.org.br.
*Paula Silveira é presidente da FBrN – Federação Brasileira de Naturismo, desde 2021 e presidente da associação SPNAT – Naturistas da Grande São Paulo desde 2020. É naturista desde 1997 e é representa o Brasil na CLANAT – Comissão Latino-Americana de Naturismo, foi Conselheira Maior da Região Sudeste de 2017 a 2020. Representou o Brasil no Congresso Mundial de Naturismo do México em 2024, no ELAN – Encontro Latino-Americano de Naturismo no Peru em 2026, Colômbia em 2022 e no Equador em 2020.



