Por: Nutricionista Davi Mascarenhas, instagram: @davinutricionista
Muita gente pensa que ciência vive mudando de opinião em relação ao ovo, mas não é bem assim. Ele realmente já foi visto como vilão por ser rico em colesterol (~ 200 mg por unidade), mas atualmente sabemos que o colesterol dietético tem pouca influência no colesterol do sangue, e as diretrizes alimentares para americanos de 2015 deixaram de limitar a ingestão de colesterol pela dieta, que era de 300 mg por dia.
Outra preocupação em relação à saúde cardiovascular seria o ovo ter gordura saturada em sua composição. No entanto, ele não é um alimento rico em gorduras saturadas, como manteiga, banha de porco, queijo, carne vermelha gorda. O ovo tem mais gorduras insaturadas (principalmente ômega 9) do que gorduras saturadas. Ele é rico em proteínas de alta qualidade, possui todos os aminoácidos essenciais, e outros nutrientes (vitaminas, ferro e antioxidantes). Mas um alimento saudável deve melhorar a saúde cardiometabólica, reduzir o risco de doenças crônicas (doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, câncer). Será que o ovo cumpre esse papel?
Muitos estudos de coorte prospectivos sobre a associação entre a ingestão de ovos e o risco de doenças cardiovasculares forneceram descobertas conflitantes. Os resultados de três estudos coorte (com acompanhamento de 32 anos) e de uma meta-análise atualizada (de 2020) mostram que o consumo moderado de ovos (até um ovo por dia) não está associado ao risco geral de doenças cardiovasculares e está associado a um risco potencialmente menor de doenças cardiovasculares em populações asiáticas (DROUIN-CHARTIER, 2020).
O consumo de ovos não tem associação significativa com a incidência de doença cardiovascular (DCV) na população em geral. Por outro lado, os ovos podem influenciar e interagir com o diabetes. Consumidores frequentes (7 ou mais ovos/semana) têm maior incidência de diabetes; e entre pacientes com diabetes prevalente, consumidores frequentes apresentam mais eventos clínicos de DCV. Por outro lado, maior consumo de ovos está associado a menor risco de acidente vascular cerebral hemorrágico, potencialmente relacionado aos efeitos protetores do colesterol dietético na fragilidade vascular (MOZAFFARIAN, 2016).
Alguns estudos observacionais mostraram uma associação positiva entre a ingestão de ovos e o risco de mortalidade por câncer, o que foi confirmado por uma meta-análise mais recente de um grupo de pesquisadores de Harvard (MOUSAVI, 2022). Em uma meta-análise de dose-resposta de estudos observacionais prospectivos, o consumo de mais de 5 ovos por semana foi associado a um risco modestamente elevado de câncer de mama, ovário e próstata fatal (KEUM, 2015). Apesar de um grande corpo de evidências apoiando uma associação entre o consumo de ovos e o risco ou mortalidade por câncer, vários estudos falharam em observar uma associação significativa (MOUSAVI, 2022).
Normalmente rotulamos os alimentos como saudáveis ou não saudáveis e ignoramos que alguns alimentos podem ter um efeito neutro na saúde cardiometabólica, sem fortes evidências de riscos ou benefícios, como é o caso do ovo (em quantidades moderadas). Até que mais evidências sejam geradas, pode ser prudente considerar o ovo como alternativa saudável a alimentos prejudiciais (por exemplo, carnes processadas, grãos refinados, açúcares), mas alternativa relativamente pouco saudável em comparação com alimentos benéficos (por exemplo, peixes, oleaginosas, leguminosas, vegetais e frutas) (MOZAFFARIAN, 2016).
Referências: Ebook do grupo de estudos Dudu Haluch, MOZAFFARIAN, 2016; MOUSAVI,
2022, MOZAFFARIAN,2016; DROUIN-CHARTIER, 2020



