Por Eneida Roberta Bonanza
Há terapias que chegam como vento leve e, ainda assim, reviram mundos por dentro. A ozonioterapia é uma dessas ondas silenciosas: mistura de oxigênio e ozônio, aplicada de forma precisa, que desperta no corpo a lembrança de respirar melhor, cicatrizar mais rápido e doer menos. É ciência e é cuidado. É técnica e é presença.
Nos últimos anos, o Brasil deu passos importantes para reconhecer esse caminho. Em 4 de agosto de 2023, a Lei 14.648 autorizou a ozonioterapia como procedimento complementar em todo o território nacional, com condições claras: ser realizada por profissional de saúde, devidamente inscrito em seu conselho, e exclusivamente com equipamentos regularizados na Anvisa. Sempre com informação transparente ao paciente de que se trata de terapia complementar.
Agora, em 21 de agosto de 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução nº 2.445/2025, uma vitória concreta para quem atua com base em evidências: o CFM autoriza a ozonioterapia como complementar no tratamento de feridas (pé diabético, úlceras arteriais isquêmicas, venosas crônicas e feridas infecciosas agudas, por via tópica — “ozone bagging”, óleo ou pomada ozonizada) e em dor musculoesquelética (injeção intra-articular no joelho com osteoartrite e técnicas específicas para dor lombar por hérnia de disco, em ambientes e por especialistas habilitados). A norma também exige equipamento gerador de ozônio medicinal certificado pela Anvisa e define critérios de segurança e registro em prontuário.
Não é a primeira área da saúde a normatizar o tema no país. Na Odontologia, a Resolução CFO 166/2015 reconhece a ozonioterapia para cárie, periodontia, endodontia e cicatrização em cirurgias, um marco histórico na prática clínica.
Na Enfermagem, pareceres do Cofen apontam que o procedimento pode ser realizado por enfermeiros
Na Fisioterapia, o Coffito reconhece a ozonioterapia como prática complementar no escopo do fisioterapeuta, reforçando o caráter multiprofissional quando há formação específica e observância técnico-legal.
O que a ciência tem mostrado
Feridas crônicas (com destaque para pé diabético). Revisões sistemáticas e meta-análises recentes mostram que, como adjuvante ao tratamento padrão, a ozonioterapia acelera a cicatrização, reduz área da lesão, encurta tempo de internação e, em alguns estudos, diminui taxas de amputação em pé diabético — um desfecho que muda destinos. Ainda há heterogeneidade entre protocolos, mas o sinal é clinicamente relevante.
Dor musculoesquelética. Em osteoartrite de joelho e em algumas síndromes dolorosas, revisões apontam redução de dor e melhora funcional com injeções intra-articulares de O₂-O₃.
Segurança: Em síntese de ampla experiência clínica, a taxa de complicações relatada foi baixa (≈0,064%), quando respeitados dose, via e técnica.
Como age: A literatura descreve mecanismos antimicrobianos, modulação inflamatória, melhora da oxigenação e da microcirculação, além de impacto na expressão de antioxidantes e fatores de crescimento que favorecem a reparação tecidual. É um “empurrão metabólico” para que o corpo lembre de se reparar.
Em linguagem de cuidado
A ozonioterapia não substitui tratamentos consagrados: ela soma. É como abrir a janela para que entre ar fresco no quarto. Às vezes, esse ar é o que falta para uma ferida ganhar bordas de vida, para um joelho lembrar do passo leve, para um corpo cansado retomar fôlego. Quando feita com critérios, protocolos e equipamentos certificados, ela gera resultados que o paciente sente e que a ciência, cada vez mais, mede.
Transformar a vida é, também, transformar o modo como a ciência se coloca a serviço do humano.



