Por André Henrique
A recente repercussão envolvendo o preparo e consumo de carne de paca pela primeira dama Janja Lula da Silva, amplamente divulgada por veículos de comunicação, reacendeu um debate importante e muitas vezes mal compreendido sobre o consumo de carne de animais silvestres no Brasil.
Mas, em meio ao discurso político e moral, surge uma pergunta mais técnica e relevante: é possível consumir carne de paca de forma legal e sustentável?
A resposta é sim, e mais do que isso: é desejável sob o ponto de vista ambiental, econômico e social.
Legalidade não é sinônimo de proibição
A paca (Cuniculus paca) é um animal silvestre nativo da fauna brasileira. A caça ilegal é, de fato, proibida pela IBAMA e pela Lei de Crimes Ambientais.
Entretando, o que muitos ignoram é que a legislação brasileira permite a criação comercial de animais silvestres, desde que devidamente autorizada pelos órgãos ambientais.
Ou seja:
Existe uma diferença clara entre caça ilegal e produção legal em cativeiro.
Criadouros registrados podem reproduzir, manejar e comercializar animais como a paca, garantindo rastreabilidade, controle sanitário e sustentabilidade.
A criação de pacas como alternativa sustentável
Defender a criação comercial de pacas vai muito além da gastronomia, trata-se de uma estratégia moderna de uso sustentável da biodiversidade, alinhada com princípios de conservação ex-situ e desenvolvimento econômico.
Quando bem regulamentada e fiscalizada por órgãos como o IBAMA, essa atividade transforma um problema histórico, a caça ilegal, em uma solução estruturada.
Combate indireto à caça ilegal
Ao inserir no mercado uma carne com origem legal, rastreável e sanitariamente controlada, reduz-se a dependência da cadeia clandestina. O consumidor passa a ter opção, e isso enfraquece a pressão sobre populações naturais.
Conservação com valor econômico
Espécies que geram renda tendem a ser preservadas. A paca deixa de ser apenas um recurso explorado ilegalmente e passa a ser um ativo ambiental, incentivando sua manutenção e reprodução controlada.
Nova oportunidade para o produtor rural
A criação de fauna silvestre abre um nicho de mercado diferenciado, com alto valor agregado. Para pequenos e médios produtores, é uma alternativa viável de diversificação, especialmente em propriedades já consolidadas.
Eficiência produtiva e menor impacto
Comparada a sistemas tradicionais, a criação de pacas pode demandar menos área, apresentar boa conversão alimentar e gerar menor pressão sobre recursos naturais, um ponto chave em tempos de busca por produção mais sustentável.
Carne de paca: um produto nobre e subutilizado
A carne de paca é reconhecida por chefs e consumidores como uma das mais saborosas entre as carnes silvestres. Rica em proteína, com baixo teor de gordura e sabor marcante, ela já ocupa espaço em restaurantes especializados.
Ainda assim, o preconceito e a desinformação limitam seu mercado.
O Brasil, com uma das maiores biodiversidades do planeta, ainda explora pouco o potencial da fauna nativa de forma sustentável.
O problema não é consumir, e sim como consumir
Transformar o debate em uma discussão moral simplista “pode ou não pode comer paca?” é um erro.
O verdadeiro ponto é:
❌ Caça ilegal → crime ambiental
✅ Criação autorizada → atividade econômica legal e sustentável
Colocar tudo no mesmo pacote só reforça a ilegalidade e prejudica quem faz o certo.
Um caminho para o futuro do licenciamento ambiental
Para quem atua com licenciamento ambiental (como você), esse tema abre uma oportunidade estratégica:
Implantação de criadouros comerciais licenciados
Regularização de produtores rurais
Projetos de uso sustentável da fauna
Educação ambiental com foco em uso consciente
A criação de pacas pode, inclusive, se tornar um nicho de mercado dentro da consultoria ambiental, especialmente em regiões rurais.
Conclusão: menos hipocrisia, mais técnica
O caso amplamente noticiado não deveria servir para demonizar o consumo de carne de paca, mas sim para qualificar o debate.
O Brasil precisa avançar de uma visão proibitiva para uma abordagem baseada em:
ciência
gestão
sustentabilidade
Defender a criação comercial de pacas não é incentivar o consumo irresponsável, é justamente o contrário:
É organizar, controlar e tornar sustentável uma prática que já existe.
E no fim das contas, a pergunta que deveria guiar o debate não é “é certo comer paca?”, mas sim:
“Estamos fazendo isso da maneira correta?”
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André Henrique de Rezende Almeida
@BIOLOGOANDREHENRIQUE
Biólogo CRBIO 02: 60.945
Engenheiro Ambiental CREA: ES-055476/D



