Por Eneida Bonanza
Falar sobre perdoar pai e mãe costuma ser um gatilho para muitas pessoas. “Mas como eu vou perdoar quem me abandonou?”, “Como aceitar quem me feriu, me rejeitou, ou nunca me deu o amor que eu precisava?”
E a resposta sistêmica para isso pode parecer desconcertante à primeira vista: não se trata de perdoar por aquilo que faltou. Trata-se de reconhecer o que foi entregue.
Segundo a visão da Constelação Familiar Sistêmica, todos nós viemos ao mundo por um único caminho possível: o encontro entre o nosso pai e a nossa mãe. Não importa se eles foram presentes, se nos criaram, se permaneceram juntos ou se sequer nos quiseram. O fato é que só eles, com aquelas exatas cargas genéticas, biografias e histórias, poderiam ter nos dado a vida.
E a vida é o maior presente de todos.
Tomar esse presente — com toda a humildade e reverência que ele merece — é o primeiro passo para a cura profunda. Não se trata de aceitar abusos, repetir padrões ou romantizar dores. Se trata de tirar os pais do pedestal das expectativas. Parar de esperar que fossem pais ideais, quando talvez mal conseguiram ser adultos inteiros.
Perdoar, nesse olhar, não é sobre absolver. É sobre soltar o que nos prende.
Muitos de nós permanecem emocionalmente amarrados a uma ideia de como os pais deveriam ter sido: mais amorosos, mais presentes, mais protetores. Mas essa cobrança constante cria um ciclo de sofrimento e frustração — e nos mantém infantis, esperando que algo venha de onde já não pode vir.
Na Constelação, esse movimento é chamado de “tomar os pais como são”. Sem exigir, sem cobrar, sem querer mudar. Apenas reconhecendo: eles me deram a vida — e isso é suficiente.
Esse reconhecimento não é resignação. É força. Porque quando deixamos de lutar contra o passado, liberamos energia para o presente. Deixamos de ser vítimas da história e passamos a ser protagonistas do nosso destino.
Isso não anula as dores. Mas muda o lugar de onde as olhamos.
A criança em nós pode ter sofrido, sim. E é legítimo acolher essa dor. Mas o adulto que somos hoje precisa decidir: continuo preso à falta ou honro o que recebi e sigo adiante?
A Constelação nos ensina que, ao recusar nossos pais, recusamos também a nós mesmos. Porque somos 50% pai, 50% mãe. Quando negamos um, negamos uma parte de quem somos. E como prosperar, amar, crescer ou construir algo saudável com esse autoabandono silencioso?
O perdão, nesse sentido, não é um presente para os pais. É um presente para nós.
Quando dizemos internamente: “Eu recebo a vida de vocês. Não peço mais nada”, algo se reorganiza. O peso cai. O fluxo volta. O coração se alivia.
Você não precisa concordar com o que fizeram. Não precisa ter contato. Não precisa reabrir feridas. Mas precisa — por você — fazer esse gesto de aceitação da vida.
Foi através deles que você chegou até aqui. Nenhum outro homem, nenhuma outra mulher teria gerado exatamente você. E isso basta.
Perdoar, nessa perspectiva, é dizer sim à vida como ela é. É tomar pai e mãe, com tudo o que foram e com tudo o que não conseguiram ser. E a partir desse sim, criar algo novo. Algo que você pode entregar ao mundo com mais liberdade, mais leveza e mais consciência.
Porque quem honra a origem, caminha com raízes firmes. E quem caminha assim, floresce.
Se esse texto tocou algo aí dentro, continue essa jornada comigo.
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