Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
@psicanaliseativainpc
Durante muito tempo, eu achei que cuidar da saúde era cumprir consultas, fazer exames e tentar não adoecer. Só depois percebi que também existe uma forma silenciosa de adoecimento: aquela que começa quando eu passo a viver contra mim mesmo.
Ela aparece quando eu digo “tudo bem” com o peito apertado. Quando aceito uma conversa que me machuca porque tenho medo de parecer difícil. Quando adio o descanso, engulo o cansaço e continuo oferecendo presença a todos, mesmo quando já não consigo estar inteiro nem comigo.
No Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, eu penso que saúde não cabe apenas em receitas, diagnósticos ou hábitos físicos. Ela também mora nas escolhas que faço todos os dias para preservar minha energia, meu corpo e minha tranquilidade.
Lembro de uma cena bastante comum. A pessoa chega em casa depois de um dia exaustivo, ainda responde mensagens, resolve problemas, prepara tudo para os outros e, quando finalmente se deita, percebe que não teve sequer alguns minutos de silêncio. Não faltou amor. Talvez tenha faltado espaço para si.
Em outra situação, alguém permanece em uma relação que já se tornou fonte constante de ansiedade. A cada mensagem não respondida, o coração acelera. A cada discussão, surge a necessidade de explicar demais, pedir desculpas por existir ou fazer qualquer coisa para evitar o abandono. Essa pessoa pode até dizer que está acostumada, mas o corpo costuma contar uma história diferente: noites maldormidas, tensão nos ombros, falta de apetite, irritação, cansaço.
Eu não acredito que cuidar de mim signifique abandonar quem amo ou me tornar indiferente às necessidades dos outros. O cuidado que proponho é diferente. É aquele que me permite perguntar, com honestidade: “O que está acontecendo comigo?”; “Até onde eu consigo ir?”; “Estou escolhendo isso por vontade ou por medo?”
Essas perguntas nem sempre trazem respostas confortáveis. Às vezes, elas mostram que eu venho ultrapassando meus próprios limites para manter uma relação, evitar conflitos ou continuar sendo necessário. E existe uma virada importante quando compreendo que ser amado não deveria exigir o desaparecimento de quem eu sou.
Dizer “não posso agora” também pode ser uma forma de saúde. Pedir tempo, estabelecer distância, interromper uma conversa agressiva ou deixar de justificar cada escolha são maneiras de voltar para mim. Não como quem fecha o coração, mas como quem finalmente abre uma janela para respirar.
Foi assim que comecei a compreender a autonomia afetiva. Não como uma promessa de nunca precisar de ninguém, mas como a capacidade de permanecer comigo mesmo enquanto me relaciono. Eu posso amar e, ainda assim, reconhecer o que me faz mal. Posso me importar e, ao mesmo tempo, não assumir a responsabilidade por tudo o que o outro sente. Posso escolher estar perto sem transformar a presença de alguém na condição para que eu fique bem.
Cuidar de mim também envolve aceitar que meu corpo percebe o que minha mente tenta negociar. A exaustão, a angústia e a inquietação não são fraquezas que devo esconder. Muitas vezes, são sinais pedindo atenção antes que eu precise parar à força.
Neste 5 de agosto, eu quero lembrar que saúde não é apenas prolongar os dias. É também conseguir habitá-los com mais verdade. É ter energia para viver, clareza para escolher e tranquilidade para não permanecer onde preciso me abandonar.
No fim, cuidar de mim não é egoísmo. É uma forma de dizer, com gestos concretos: eu também faço parte da minha própria vida.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353
Credito imagem: Pinterest Perfil Sara Cisternino



