Por Claudimar Nunes
No mundo dos sentidos, é natural que gostamos de apreciar experiências que, paradoxalmente, refletem ou estimulam a lembrança de momentos passados, que até então estavam guardados nas memórias afetivas. Portanto, falando de experiência e de memória, creio que seja justo afirmar que alguns estímulos são gatilhos da memória e, as outras sim, de fato, são “experiências novas”, se é que não estou cometendo um pleonasmo.
No meu caso, eu acredito que a paixão pela gastronomia está sim relacionada às minhas memórias afetivas, mas há também outra força que se empenha na curiosidade em descobrir novos sabores e aromas. Eu gosto de provar tudo o que é possível e comestível, até nattou (alimento japonês feito de soja fermentada).
Certa vez, em Bonito, num passeio com um grupo de turistas, o guia nos mostrou uma palmeira com cachos amarelinhos e disse: “este é o bacuri. Os macacos gostam muito deste coquinho”. Ah! eu não poderia perder a oportunidade! “Se macaco come, por que eu não comeria?”, pensei. Já fui logo pegando um coquinho e mordi. Não senti um espetáculo de sabores, mas sim uma cola nos dentes que não se soltava. De todas as formas eu tentava livrar meus dentes da polpa da fruta, e disse ao guia: “rapaz, não descola dos dentes”! Foi quando ele repetiu as suas próprias palavras em tom severo: “eu disse que é comida de macaco!”… Não precisa dizer que todos ali riram muito. Continuei caminhando junto com o grupo, tentando tirar a massa com os dedos, então havia outra palmeira igual no caminho. O guia me perguntou se eu ainda queria bacuri, pois havia na palmeira um cacho bem grande de coquinhos amarelos. Eu respondi que não, pois ainda tinha fruta nos dentes, e agradeci. O grupo todo deu gargalhadas!
Bem, trazendo a ideia dos alimentos não convencionais, é óbvio que não desprezamos os alimentos que se consolidaram na alimentação de pessoas pelo mundo, e respeitamos a cultura de cada região, até porque elas normalmente se formam na força da necessidade ou da disponibilidade, como é o caso dos esquimós, que vivem no extremo norte do planeta. Ao abaterem uma foca, eles já dividem entre si o fígado do animal e comem ainda cru. Não é apenas uma tradição, o fígado da foca é a única fonte de vitamina C que aquelas pessoas possuem.
Mas, independente destas questões sociais e culturais, no Brasil e talvez em todos os lugares, há uma reserva de plantas que “ainda” não temos o hábito de servir à mesa, e aquelas que talvez tenham sido esquecidas no passar dos anos.
Observando uma ave que cisca o chão, você já se perguntou como ela distingue o alimento que está misturado à areia? E, quem ensinou o cachorrinho a comer grama para ajudar na sua digestão? Pois bem, observando esses animais que não frequentam escola, comparados a eles, parece que perdemos uma parte da capacidade de distinguir naturalmente as plantas que se pode consumir e as que não se pode. Por isso, talvez, continuamos restritos ao alimento convencional, na zona de conforto, e comemos o que já conhecemos.
Há pouco tempo, eu tive a prazerosa oportunidade de conhecer o Restaurante Pupu’s Panc Party, em Paraty, e posso dizer – foi uma das melhores experiências que já pude ter. Não só gastronômica, mas fui agraciado em todos os meus cinco sentidos. Não pretendo destacar aqui o ambiente maravilhoso, decorado com obras de arte de muito bom gosto, as instalações confortáveis, as músicas muito bem escolhidas para o estilo do local e o preço justo de cada prato. Quero focar no aroma que, no ambiente e na comida, remete à essência brasileira, e no sabor e textura da comida, que propiciou ao meu paladar uma verdadeira festa. Tudo isso, porque fui despertado do convencional e transportado à ideia de olhar para essas plantas com mais dedicação gastronômica. Afinal, o termo “gastronomia” significa exatamente isso, a reorganização do estômago que, neste caso, provando dessas plantas, pode-se ter uma verdadeira experiência de sabores, texturas e aromas.
Os pratos servidos seguiram uma sequência de rolinhos primavera, poke de peixe defumado e, de sobremesa, pudim de tapioca. Em tudo tinham folhas e flores de capuchinha, trapoeraba, folhas de chuchu, broto de framboesa e diversas outras, combinando, nos pratos, beleza sabores e aromas.
É sobre isso que falamos, sobre abrir a mente e o coração, para ampliar as possibilidades e vivenciar a vulnerabilidade que proporciona equilíbrio. A gastronomia é bastante ampla para permitir experienciar.
Para você que ama a gastronomia, que tal transformar a sua horta em jardim?
Bora conhecer o novo!!!
Claudimar Nunes



