Por Renata Cristina Galhardo Caserta OAB/SP 259.267
Instagram: @renatagalhardo
Imagine um casal que construiu uma vida inteira juntos, dividiu sonhos, criou filhos e superou dificuldades. Mas, quando chegam as eleições, a convivência se transforma em uma sequência de discussões.
Um defende determinado candidato. O outro não suporta sequer ouvir seu nome.
O que antes era uma divergência de opinião passa a provocar silêncio, ressentimento e afastamento.
Será que a política pode realmente acabar com um casamento?
O que dizem as pesquisas?
Uma pesquisa realizada no Brasil em setembro de 2026, pela Hibou Pesquisas e Insights, ouviu 1.449 eleitores e revelou que 67% já votaram em um candidato diferente do parceiro.
Entretanto, 85% defendem que o voto deve continuar sendo uma decisão individual.
Os números mostram que discordar politicamente não significa, necessariamente, deixar de amar.
Outro estudo, publicado em 2025 por pesquisadores que analisaram os efeitos das eleições brasileiras de 2022, identificou que 3,5% dos entrevistados deixaram de falar com algum familiar por motivos eleitorais.
A pesquisa não tratou especificamente de divórcios, mas confirmou que divergências políticas podem provocar rompimentos familiares.
Nos Estados Unidos, um levantamento realizado em 2025 apontou que aproximadamente 4% dos entrevistados já haviam rompido um relacionamento amoroso por razões políticas.
Portanto, o fenômeno existe. Mas não há dados nacionais suficientes para afirmar que os divórcios motivados por política estejam aumentando no Brasil.
É possível divorciar por política?
Sim. E existe um detalhe jurídico importante: ninguém precisa provar que o outro está errado para pedir o divórcio.
Desde a Emenda Constitucional nº 66/2010, o casamento pode ser dissolvido diretamente pelo divórcio, sem necessidade de demonstrar culpa ou justificar o término.
Isso significa que divergências políticas, religiosas ou pessoais podem motivar a decisão de encerrar um casamento, mas não precisam ser comprovadas judicialmente.
A discordância política também não altera, por si só, os direitos relativos à partilha de bens, aos alimentos ou à guarda dos filhos.
O problema não é apenas o voto
Talvez a questão mais delicada não seja apoiar candidatos diferentes, mas a maneira como o casal lida com essa diferença.
Quando o diálogo dá lugar à humilhação, ao desprezo ou à tentativa de controlar a opinião do outro, a divergência ultrapassa o campo eleitoral.
E, quando existem filhos, é fundamental que não sejam transformados em participantes das disputas dos adultos.
A democracia pressupõe o direito de discordar. O casamento também exige respeito à individualidade.
Afinal, o voto é secreto, mas o respeito dentro de casa precisa ser evidente.
Renata Cristina Galhardo Caserta
Advogada, com atuação nas áreas de Direito das Famílias e Sucessões, Direito do Trabalho e Direito Previdenciário.



